cxlvii

O ato de despir.


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Por vezes, dispo-me profundamente.
Há sempre uma nova camada por remover quando lá retorno, uma peça que ficou esquecida de outros tempos ou uma nova que surgiu, entretanto, sem ninguém dar por ela. É trabalho penoso, o de desenterrar as raízes, as razões que me fazem; a árvore nasce de qualquer modo, de qualquer forma, e nesses ramos e folhas que crescem, que me embelezam, nunca me descubro, nunca me justifico.

Talvez – e só talvez – por detrás desta magnífica maquinaria que me dá forma e peso, disposição espacial, as cores e os estímulos que me penetram num fornecer de sentidos supérfluos que tornam os dias mais fáceis e velozes; talvez, por detrás disto, seja tudo somente uma entidade. O cão na rua, a amazónia, a terra que emborca a morte e tudo o resto, e eu; tudo uma única entidade incognoscível.
Mas vejo-me ainda como um indivíduo; tenho uma fome medonha que, atormentada, individualizou-me, abstraiu-me dessa unidade e agora caminho em busca de algo que nunca descubro, condenado a comer-me a mim mesmo para sobreviver, as vacas, os porcos, os legumes, as ervas.
Os cães, os lobos, as baleias, as baratas; tudo é violência, nada vive em harmonia, nada vive em comunhão, é o medo que nos une, mas o medo morre, a fome fica, e cada um desesperado por vantagens, esfomeado por uma estrutura de controlo, de dominância; somos todos esfomeados, nós – as pessoas – só aprendemos a caçar com discrição.


Ainda assim, tudo isto soa a religião. Uma crença deslavada, de quem desespera por um cerne no profundo, de quem nunca se despe, nunca desenterra; somente, de olhos na árvore que cresce indiferente, chama-lhe tudo o que quer, tudo o que deseja, e vai dormir, hoje deita-se cedo, amanhã levanta-se tarde, a meio do fim do dia, mais perto de voltar a dormir.
Eu aprendi a distinguir-me muito cedo; nunca consegui enganar-me por muito tempo. As roupas, sempre as senti segregadas de mim, da pele que julgava ter, era uma árvore também, sei disso agora.

Talvez – e só talvez – não haja mesmo nada, só as probabilidades ínfimas que se desprezam e as condições perfeitas para nos suster – até agora, pelo menos; já que os dinossauros, no seu tempo, também terão pensado o mesmo. Até o teriam deixado por escrito, só que nunca aprenderam a escrever (cruéis patas curtas!).

Contudo, há religião até no vazio absoluto; não há forma de escapar à crença, ao crer que nos antagoniza, infiltra-se no dia-a-dia, na mais básica das tarefas, no mais simples dos momentos. Consciente ou não, aceita-se sempre as premissas do mundo como o vemos, cada um de nós – e isto é apesar de toda a filosofia, toda a ciência, todo o absurdismo universal.

Cada um de nós vive num mundo em que acredita, com pouco mais do que crença para o sustentar.


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