cxlviii

Caos! (ou silêncio).


Anúncios

Saí do quarto e abriu-se perante mim uma floresta. Quem diria que a natureza um dia chegaria aqui, a este recanto obscuro onde cresci de miúdo a algo mais alto, mais consciente, menos atento, menos desperto.
Foi o bater de um ramo, como uma mão a pedir para entrar, que me fez abrir a porta; agora arrependo-me. Voltei para me esconder, para fechar os olhos e dormir por entre poemas inocentes, a inocência dos poemas que sempre me embalaram docemente, eu sou a criança que chora demais, eles são os braços que dão sentido às lágrimas. Agora, vem a natureza, o ramo bateu porque quer entrar e o meu chão de madeira, devagar, dá lugar à terra, à água, ao solo que me irá subterrar.

Volto a entrar, a porta aberta, pé ante pé descubro um canto confortável para me sentar, não na cama – a cama sempre foi o meu maior tumor – sento-me no chão de madeira, no canto onde me namorei, até cheguei a gostar de mim, aqui, neste canto.
De caneta na mão mas sem papel, escrevo na atmosfera, os gestos expressam-se como pulmões ou o coração, é uma frase antiga minha que se forma, uma questão que sempre deixei por responder, tive medo de enlouquecer, de me perder por entre devaneios só meus, construções da minha mente, labirintos, a saída era já ali mas eu virei costas e fui e fui e fui.

Anúncios
Anúncios

Caos ou silêncio

O bom do fim do mundo é que remove a necessidade de respostas.
Pensei ver-me um dia obrigado a abarcar-me numa delas, agora é só um retrato de alguém que passou por mim, por aqui, por esta pele, e com ele levou a urgência de viver.
O mundo agora tem fim e talvez isso não seja assim tão mau; quando se aceita que o fim vai chegar, quando se aceita que todos estes milénios de evolução vão continuar, que o nosso início e o nosso fim são pontos ínfimos num universo indiferente mas a fulminar de oportunidades, do surgir de nova vida, num recanto novo, diferente deste quarto.
Um dia, seremos descobertas arqueológicas, e falarão de nós com romantismo, certamente, pelo bocadinho em que lutámos; esquecerão tudo o que destruímos e talvez seja pelo melhor: a nós, de nada nos serviu a história, que ela morra connosco.

Já sinto os ramos ao meu redor, é um abraço que me remove os sentidos, mas não há dor, não há sofrimento, a natureza desconhece a malícia. A terra já me cobre os olhos, a luz ainda penetra, vai usar a minha carne para dar força aos rebentos e eles vão crescer sobre as ruínas do meu quarto.

Quem diria que o fim do mundo seria tão calmo?

Anúncios
Anúncios


Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: