cl

Não pretendo crescer para lá de mim.


Não pretendo crescer para lá de mim; até eu sou um veículo e vejo-me obrigado a usar-me, um transporte necessário que me carrega há tanto tempo, já lá vão 24 anos desde que nasci. Só no escuro, na total ausência de luz, tenho permissão para sair, as portas destrancam, as janelas abrem, e contemplo dimensões diferentes, as que a luz esconde tão bem, tão eficazmente.

Não pretendo crescer para lá de mim; só quero usar estas mãos e estes pés – porque foi com eles que nasci – e usá-los para escarafunchar a superfície, um vislumbre do organismo do universo, e serei o que intitulam feliz, não há felicidade, há contentamento, desespero e excitação.


Anúncios

Não pretendo crescer para lá de mim; a minha altura sempre me deu uma perspetiva única, ninguém tem o meu tamanho, não o exato numérico, e daqui a perspetiva diz-me que o mundo é tão irreal como tudo o resto, é que eu vejo o ponto de fuga, o que se perde no horizonte, daqui eu vejo o início da projeção, não é Deus, o Big Bang, o abismo: somos nós, uma massa humana que desenha o seu próprio universo.

Não pretendo crescer para lá de mim; vejo nos olhos do meu cão algo que nunca vi em mim: uma total devoção em cada ação, seja ela cruel ou apaixonada, indiferente ou medular, há a mesma insolente energia, uma teimosa vontade que nem compreende outra opção. Talvez por isso eles morram tão cedo, nós tão tarde, que seria de nós com a mesma perseverança? Já teríamos salvo o mundo ou acabado com ele de vez.


Anúncios

Não pretendo crescer para lá de mim; que isso fique claro, que eu nunca me deixe esquecer que são estes pés, estas mãos que escarafuncham, que me mantêm e me alimentam e me protegem para que eu possa vislumbrar esses tecidos fundamentais, essas formas e cores inefáveis. Quero vislumbrá-las como os humanos que amam a natureza e por entre ramos e galhos e lodo e excrementos, veem nascer os seres nos seus íntimos recantos e não dizem a ninguém, não fotografam nem filmam, eles sabem que nada humano traduz a profunda, divina revelação momentânea da nossa mãe comum.

Não pretendo crescer para lá de mim; somos traídos a nascer, vingamo-nos ao dar à luz.

Anúncios


Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: