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O meu herói.


O meu herói toca para ninguém, no meio de um parque qualquer, a noite cai e a voz dele é um choro que se ergue, a angústia que se ouve é ele a tentar fazer-se entender.

O meu herói toca mais alto; ele recusa-se a ouvir o silêncio, as flores dançam pelo prado, é o vento, é a vibração das cordas, é uma qualquer ligação entre ele e as flores, os caules que dançam para ele e sorriem, como o amam, é carinho sincero, uma real emoção altruísta.

O meu herói sorri; quando é que aprendi a tocar assim? ele não sabe mas é natural, é virtude, é o talento de um diamante em bruto. A natureza – à falta de outras opções – reconhece-lhe o vício, o de dedilhar como se a guitarra fosse um corpo, as cordas a medula, os nervos, e os impulsos nervosos vão carregados pela vibração, navegam meio mundo e retornam, ele envia o mais sôfrego desespero, recebe algo a que chama amor, envia uma sufocante agonia, recebe algo a que chama compaixão.


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O meu herói vem cá todos os dias, nunca desiste de tocar, vem sempre à mesma hora, no mesmo lugar; ele acredita – como os melhores de nós – nas relações causais e, sempre que ele vem aqui tocar, o mundo não acaba, não colapsa, não culmina num momento de destruição, por isso volta sempre; se não vier o mundo vai acabar. Não lhe faz qualquer sentido mas, sempre que chega a hora, sempre que chega o momento, tem a guitarra na mão, a parque em redor, a voz pronta, as flores a aguardar.

O meu herói vai agora para o seu recanto, o lugar onde dorme e sonha com luzes e cores que nunca viu, assombros poéticos que o inspiram a ser melhor, pior e assim-assim. O recanto foi um carro outrora, um dia, antes de agora; agora é um quarto, um telhado metálico que o mantém seco na chuva, quente no verão, frio no inverno – as janelas estão sempre abertas.


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O meu herói vai agora dormir; quando a noite vem, ele não sabe parar, mas as ruas são perigosas para passear, ainda que a noite seja a mais bela hora para ver o céu, os prédios, as pontes, o universo que dorme. Mas o meu herói não sabe parar por isso deita-se para dormir no seu outrora carro, agora quarto, revê as canções que cantou hoje, prevê as que cantará amanhã e, antes de qualquer outra coisa, já adormeceu e a mente preenche os cantos obtusos com as cores que ele desconhece.

O meu herói toca para ninguém, só para as flores, os caules que dançam e o mundo que ainda não acabou.

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