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O mar vai e vem.


O mar vai e vem.
Já terminou o medo da página em branco, terminou com o vaivém do mar.

As ondas, prefiro fechar os olhos e ouvi-las, conforme elas colapsam sobre a terra, a areia molhada da onda anterior, conforme elas colapsam e avançam, provam o mundo humano e recuam logo depois, gostam mais do seu, certamente o compreendem melhor.

As ondas, prefiro fechar os olhos e ouvi-las, conjeturo os seus pensamentos com base no som que impulsionam, enviam-no a mim para que o ouça, para que o sinta a estender-se a mim, delas para mim, são o assobio da madrugada, o cantar dos grilos, a vibração das vagas de calor. Em tudo, a natureza fala, o que nós chamamos falar, só tive azar de nascer homem e não sou capaz de interpretar, tenho somente o deleite de fechar os olhos e ouvir, só esse simples deleite.

Fecho os olhos e ouço; as ondas colapsam, aqui ao lado chora um cão em silêncio, vê o dono no mar a ser sugado pela violência de um meio que não controla e chora num desespero silencioso porque não quer incomodar, só quer controlo sobre os seus, mantê-los seguros num mundo que colapsa em vaivém.


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Como se representa este mundo que é o mar?


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O ideal de beleza – o de Rafael e Michelangelo – falhou tão magnificamente em representar que desencadeou uma explosão no sentido oposto e eu aqui, de olhos fechados a ouvir, aprofundo-me numa qualquer espiritualidade em que não acredito só porque parece-me mais próxima de mim do que o que os meus olhos veem e as palavras querem traduzir.

Se nevasse agora aqui, numa praia em pleno verão com o termómetro superior a 30°, o que lhe chamaríamos?
Se uma onda se erguesse num incrível maremoto, pronto a arrastar todos estes corpos mas, em vez de o fazer, se elevasse para os céus tal nuvem e deixasse o solo com a areia apenas, que fenómeno seria esse?
O mesmo que viver talvez, algo que se descreve incompleto, sempre incompleto pelos ínfimos momentos que tornam a realidade real, e não uma qualquer fantasia de um livro.

Prefiro fechar os olhos e ouvi-las, as ondas; a decadência da expressão só virá depois.

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