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Agénero.


Certamente não voltarei a ser homem, e nunca dei espaço à mulher em mim para crescer. Penso que permanecerei neste estado indefinido até ao fim dos meus dias.

Culpo o meu cérebro, pensar em excesso tira o sentido às noções mais básicas, as lacunas e os saltos lógicos constroem-se à semelhança do privilégio: julgamos ter descodificado todas as camadas, mas também isso é uma camada, a travessia só agora começou, nem vejo a ponta do icebergue, aqui ainda é verão.

Tenho esta doença que me seduz; não é ela que vive em mim, sou eu que vou até ela. Penso nela quando me deito, é ela que me embala para dormir. Quando era uma criança brincávamos juntos mas agora já não brincamos, as conversas são todas sérias. Ouço-a a soletrar-me as palavras que afogo, que silencio para não ouvir, por vezes também eu me canso de mim e não quero ter de me ouvir, mas ela convence-me sempre a pegar no caderno e escrever, a abrir o livro e ler, porque o tempo passa e eu vou morrer, seja amanhã ou no fim dos tempos, e ainda não fiz nada do que queria fazer.


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Quando lavo o quintal, a água projeta-se da mangueira em violência e rapidamente enche o chão, carregando os detritos do vento, das plantas, das solas sujas. Não demora para que veja as aranhas a tentar fugir, coitadas, mas quando os seus pequenos corpos tornam-se em embarcações no oceano, já nada podem fazer para combater a violência da corrente, são levadas com o resto, destinadas a cair nos esgotos e a morrer sufocadas sem compreender onde foi que erraram para morrer assim.

Antes desse fim, no entanto, eu intervenho e salvo-as da água, do dilúvio que as assola sem perdão. Não sei por que o faço, não sei por que as salvo; talvez só não queria pensar nelas a morrer, um segundo dois segundos três segundos já estarão mortas agora, não quero pensar nisso, talvez por isso as salve e evite a visão das patinhas num pânico tremendo a tentar caminhar, sempre funcionou para elas, fugir com as patinhas, mas não desta vez, tenho de ser eu a salvá-las para continuarem a viver, eu e só eu, não há mais ninguém no quintal, faço questão de o lavar quando não lá está ninguém.


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É isso, não é?
Sucumbimos sempre aos mesmos vícios.
É a doença que está aqui, como ela me seduz, ergue a mão e eu vacilo num segundo, engano-me quando não aguento o egoísmo, deliro quando aceito que é tudo o que eu sou. Procuro, insaciável, uma cura em cada página, em cada movimento do universo e dos ínfimos sujeitos, mas pouco vejo que se assemelhe a uma resposta, são as perguntas que se erguem, metastizam-se em alegorias.

Vou despir-me da individualidade, já não quero ser cidadão. Dá-me as gentes, os aglomerados, faz-me parte dessa massa de corpos e sexo e fome e deixa-me cair na tentação de viver. Dá-me paz, uma pacífica forma de conviver comigo mesmo, eu já não suporto estar errado.

Talvez deixe as aranhas morrer, da próxima vez. Ou é matá-las o verdadeiro ato altruísta?

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