clv

“Ser poeta é ser mais alto, é ser maior / Do que os homens!”


Ouço as paredes conversar; são todas brancas à exceção de uma.
Por vezes, gosto de me sentar no centro da sala, como uma peça decorativa, e ouvir o que estas paredes contam umas às outras. Elas são filósofos – armchair philosophers – que descrevem um mundo só seu, um mundo que não sente, tão-só pressente as mudanças que a superfície da sua estrutura sofre. Tomam-no como universal.
Para mim, é uma lição de humildade: também eu venero um mundo meu, também eu esqueço que não supero a crença.

A Florbela Espanca escreveu:

Eu não gosto do sol, eu tenho medo
Que me leiam nos olhos o segredo
De não amar ninguém, de ser assim!

Gosto da noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!...

Fez-me pensar em como os poetas sofrem todos do mesmo mal: um ego desmedido num corpo que não o quer, mas não se sabe livrar dele. A arte é, tão-só, a coberta perfeita.
Fosse a arte anónima, toda exposta em conjunto num corredor infinitamente extensível sem placas ou assinaturas, e seriam menos as histórias trágicas de artistas desgraçados e enraivecidos com Deus; também seriam menos os artistas em geral, menos a arte. Afinal, que produto artístico sobreviria a um mundo anónimo?


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Terá sido isso que levou os pré-históricos a desenhar nas cavernas?
Talvez quisessem destacar-se dos seus pares mas, condenados por um físico inferior, forçaram-se a fletir os flácidos músculos na proteção das paredes, os acanhados dedos, e, de rasgão em rasgão, o sangue da pedra, descobriram a representação de um mundo complexo e imprevisível em breves e ténues linhas.

O que é isso?”
É Arte.”

E assim nasceu a mais inútil função humana, a mais bela de todas; a única que sobreviveu dos tempos de outrora, a que restará de nós nos tempos por vir.

Veio o futuro, depois; é onde eu estou agora e eu ouço as paredes falar do centro da sala. Conhecem-se umas às outras e sabem dessas tais que albergam primitivos rabiscos milenares, outras com séculos, outras com décadas e elas, estas paredes, a conversar, todas brancas à exceção de uma.
Hoje os tempos são outros, o futuro veio e impôs-lhes a funcionalidade (A Arte está morta!), já ninguém pinta as paredes como antigamente; mas elas, coitadas, só querem um riscozinho para guardar para o futuro, as amigas nos museus e elas aqui, as desgraçadas, uns rabiscos e umas décadas e podem ser elas. Como sonham elas! (são elas quem o dizem, não sou eu.)


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Eu faço o meu trabalho: ergo-me do centro da sala, corro ao quarto para arranjar uma caneta de tinta indelével, volto para perto delas, e deixo a minha solitária marca em cada uma, um trecho de um outro poema:

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens!

Elas acusam-me de ironia, acham que brinco com elas, que as gozo por deleite, que não entendo as dores de viver. Eu explico-lhes que nunca ironizei na vida; apenas nasci homem e vi-os de perto, e em nada me custa crer que tudo o resto seja mais alto – até o poeta.

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