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A senhora do quadro.


Os loucos, os fantasmas somos nós”; mas cá andamos, em meu redor não vejo o mundo a parar por causa disso, lá vão as pessoas, olha o passo, cronometrado, é involuntário, mas ninguém ama o regular como nós – isso sim é amor!


Na parede da minha casa, vive a senhora do quadro.
Não sei quando foi que a puseram aqui, só recordo o movimento, as cores a levantarem-se, a erguerem-se do chão, e a senhora agarrou-se à parede como um gato, parafusos em vez de garras. Apresentei-me quando nos vimos a sós, tive-lhe dó, ninguém lhe deu atenção ou o devido respeito, mas um objeto também carece de respeito e eu sempre falei com as coisas.

A senhora do quadro vive num campo. A casa, vejo-a ao longe: o laranja encurvado dá forma ao telhado, o branco sujo – é azul, é rosa, é verde – dá simetria às paredes que sustentam a casa, não vá esta cair, desmoronar e aleijar alguém. É aqui que a senhora dorme, nesta mancha de tinta caseira, e vive e come e faz os seus dias.
A mim, só me desilude a chaminé; está ausente. A minha casa num quadro seria de pedra e velhinha, as portas a ranger com o movimento do vento, e a chaminé sempre a fumar, a formar as nuvens que decorariam o céu. As minhas nuvens não chorariam, seriam tão-só uma vista bonita; não há nada que brote de um solo de tinta.


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A senhora do quadro veste-se de branco de cima a baixo, não será certamente por acaso: é a pureza do momento. Levantou-se de manhã cedo com o cantar dos animais, ouviu-os pela janela que deixou aberta durante a noite; ainda pensou em fechá-la mas a brisa é tão doce no corpo quente! E o pintor esqueceu-se do medo quando a pintou, quando pintou a casinha e o verde prado, o céu azul e os leves traços que são árvores, arvoredo, uma mancha de vida verde.

Só destoa o chapéu: tem um laço encarnado que condiz mais com o rosto – o que se esconde na aba do chapéu – vê-se os lábios sérios, o nariz espicaçado, uma tormenta vermelha que não é como a paisagem, a calma casa, o prado verde, não. Há algo de encarnado; a senhora do quadro não se transtorna, mas atormenta-se, é um fogo que a queima. Talvez como eu desejasse a chaminé, mas o pintor não a pintou, desgraçado, deixou-a sozinha no prado.

Ela apanha flores – vermelhas e brancas – mas o cesto tende ao contrário. A senhora do quadro não parece preocupada, que retornem elas à terra!, ao solo que as viu crescer; vão mortas agora, vão lá para morrer junto às raízes, as maternas raízes que as fizeram nascer.

Será um sinal de revolta?


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Nada lhe pergunto e ela nada me responde, mas por entre o que não dizemos, eu ouço-a falar, suave, um vento talvez, um sussurro que se esperava perdido mas, teimoso, veio até mim, exigiu-me o ouvido, e de vibração em vibração, contou-me o que a senhora do quadro pensa:

Já vivemos tão juntos e tão sós
Que da vida perdemos o sentido.


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