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Eu lá na serra não sou ninguém / Se fores prà guerra eu irei também


É parvoíce; mas ainda não me desapeguei deste profundo medo de morrer. É momentâneo; a manhã vem e o despertar é amargo, indigesto, com travo a vícios e paixões desmedidas – mas a morte não fica para me ver despertar. Só me atormenta as noites, quando acompanho os recessos de luz da persiana – aqueles pequenos recantos que sombreiam na cortina – numa madura versão da canção do silêncio.

Assola-me um pensamento; é algo em que pensei uma vez e ficou à deriva, vislumbro-o nos mares conscientes mas logo parte, para qualquer outro oceano, nas profundezas d’um Eu que não conheço. Surge no escuro; não por qualquer devaneio poético, mas porque a luz mantém-me focado no universo, este sem-fim de coisas com que interajo – há sempre mais, sempre mais. A televisão, por exemplo, acompanha-me na entrada da noite profunda, quando em contínuo transito entre o desperto e o sonâmbulo. E quando, por fim, desligo a televisão, o candeeiro, a escuridão verte das paredes e investe sobre o quarto, e logo me assola essa precariedade: o meu corpo é tão grande, tão complexo, cada célula um universo num universo num universo; certamente, algo estará errado.


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É inconcebível este ser: carne que se edifica em volta de um tubo central, da boca ao ânus, com expansões e restringimentos, válvulas e convoluções; mas invariavelmente carne em torno de um tubo central, da boca ao ânus. Não só é o que sou, como ainda sou capaz de pensar neste tubo central, e se este vazio por entre mim – a que não acedo e onde podiam viver mil outras espécies voadores, pairando sem tocar no meu epitélio e, por isso, sem o meu conhecimento – se este vazio, digo, é parte do que eu defino como Eu ou não. E se não, como vivo com um estranho dentro de mim? E se sim, como é que me defino com um vazio que não me pertence?

Claro que é parvoíce; comecei logo por o dizer. Ninguém pensa no tubo central, muito menos se o tubo os define; e se pensam, logo a vida vem, violenta, e tudo o resto adormece porque há luz o tempo todo, a escuridão nunca tem tempo de verter, são os miúdos que choram, os pesadelos, o emprego que se vem deitar também. Essas luzes não são como a do candeeiro, mas ativam o cérebro do mesmo modo; são as ânsias de viver num novo século, um século de estimulação contínua, de respostas sucintas que preenchem o lugar das perguntas.

Mas o corpo vacila, num momento. A perna falha, o rim que sofre, o coração que se perdeu nas contas – salta um aqui, um extra ali – e o sangue arrefece, os dedos esfriam, o olhar afunila no horror do futuro, que nefasto e inevitável!, e nasce a tormenta do quando:

Quando vem o cancro?


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O meu corpo vacila a cada noite; costumava pensar em maldições, alguém que não gostou de mim e me condenou a esta violência. Hoje compreendo-o; desbravo a vegetação à frente de onde caminho, preparo o chão para que não tropece, para que possa alimentar-me com o que faço crescer.

Vivo bem com não ser ninguém.

E se o Zeca falava de ir para a guerra como a forma que alguns encontram para dar sentido a esta invariável bizarra experiência que é viver, porque não guerrear connosco mesmos?
Olhar ao espelho, ver aquele que não queremos ser, e exclamar:

Hoje vou ser melhor.

E ser.

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