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Crónica de uma vacina.


QUINTA
Amanhã vou tomar a vacina; não é nada demais, uma pica no braço e algo que se acrescenta a mim, os tais anticorpos que crescerão e viverão comigo. Ainda assim, não sei como evitar esta sensação de bizarria: o avanço tecnológico da era moderna deixa-me sempre atordoado, num ano produz-se a vacina, mais meio e chega a mim, aqui, no Baixo Alentejo, neste lento recanto que amedronta as corridas; até aqui, chega veloz o futuro, com força e vigor.

Somos quase tão rápidos como o vírus, e esse disfruta da seleção natural para ser o mais transmissível possível. Vai sendo vencido, contudo, por nós, calmamente; o mundo ficaria do avesso se fossem outros os tempos, mas na era moderna param as cidades, param os aviões mas, no fundo, nada mudou assim tanto que não possa voltar no dia seguinte.

Somos realmente a espécie dominante; não sei por que isso me deixa com um trago amargo, mas vem-me à boca conforme o escrevo, corre-me na mente a ideia que formei de nós – os humanos – e não sei como aceitar que somos nós os dominantes; mas somo-lo realmente. Terei de viver com isso; e com a vacina que tomo amanhã. Se ela dormir serena enquanto se apega a mim, também eu dormirei sereno enquanto me apego a ela; habituação, que instrumento tão belo.


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SEXTA
A vacina entrou em mim com uma calma desmedida, quase me insultou.
Tanto furor para isto?
Foi o primeiro pensamento que me ocorreu assim que aquele afiado corpo metálico me largou o músculo, mas logo após imaginei-me a cair morto no seguimento de tão inocente pensamento e entristeci-me; morreria a rir com a sequência tão atempada de acontecimentos, mas mais ninguém saberia da piada.

O processo foi rápido e eficaz; dei-lhes todos os dados que queriam, até ofereci mais: a minha mísera altura, o meu peso fininho e uma ou duas curiosidades da minha vida – não as quiseram, mas senti-me na obrigação de as oferecer para compensar por todos os que temem ter os filhos comidos pelos comunistas. Os cookies da internet mantêm o humano incoerente, não fosse a coerência das virtudes mais mesquinhas e exigentes.

Foi de tal modo veloz que, quando ganhei consciência de mim, estava já a aguardar pela reação anafilática que causasse o pânico geral. Não tive; passei, em vez, quinze minutos a exibir o título d’um livro “Memórias de minhas putas tristes” e a analisar cada alteração climática no meu organismo.
Alteração climática?
É verdade, já que poluição é a “introdução pelo homem, direta ou indiretamente, de substâncias ou energia no ambiente, provocando um efeito negativo no seu equilíbrio“, e sendo o meu corpo o ambiente e os discretos sintomas o efeito negativo, acabei de poluir o meu corpo.
Tende calma, antivacinas!
Fosse toda a poluição assim, e a natureza não tinha razões de queixa.

Os tais sintomas não foram muitos: um dói-dói no braço, e uma leve subida da temperatura resultado dos 40° a torrar o Alentejo, o cansado, envelhecido, sempre belo, sempre tão triste Alentejo.
Não há solidão como a alentejana.
Perguntem às árvores, até elas temem o inverno; no verão sempre se pressente as férias de quem vem lá da cidade, no inverno ficam os velhos e as crianças; os velhos mais velhos, as crianças menos crianças.


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É noite agora e o Alentejo tenta dormir, mas o calor faz vibrar os ares-condicionados e vacina faz vibrar os meus músculos. Estou cansado sem ter feito esforço, moído na cabeça sem ter feito qualquer equação matemática, sinto cada um dos músculos e ossos em cada movimento; é o organismo que se vai adaptando, age como se não fosse eu, ou então como um pai que fecha os olhos ao miúdo quando começam as cenas assustadoras no filme. Do mesmo modo que o pai não tem como demonstrar ao filho a impossibilidade dos monstros, e que o filho se submete às grandes mãos sobre os seus olhos, também eu não sei como explicar ao meu corpo que tudo isto foi voluntário e para o melhor, e ele não tem alternativa às reações aos vícios e virtudes a que eu o submeto.

É noite agora e o Alentejo tenta dormir. Vou terminar e deitar-me por entre o calor, talvez ao manter-me quieto no silêncio, ele se esqueça de mim e me permita arrefecer. A cabeça pesada não concede maiores esforços. Despeço-me com o Gabriel García Márquez:

Hoje rio-me dos rapazes de oitenta (anos) que consultam o médico assustados por estes sobressaltos, sem saber que aos noventa são piores, mas já não interessam: são os riscos de estar vivo.

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