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Os poetas.


Os poetas são todos iguais: crescem com o mesmo frágil coração na boca e, já adultos, transferem-no para os dedos e usam-no para escrever. Num esforço sobre-humano, procuram pelo conjunto exato de palavras que expresse essa vulnerabilidade, não só para a identificarem – pois muitos nem sabem que a têm – mas também pela esperança, a fantasia masoquista, de que seja uma descrição perfeita o que falta para dar sentido, fundamento, contexto ao desassossego.

Soa-me familiar, todo este aparato intelectual. Talvez os poetas sejam descendentes de Sócrates, talvez partilhem do seu sangue. Esse tinha como costume andar pelas ruas de Atenas a interrogar quem encontrava nas definições, depois expunha-os às incongruências e obrigava-os a reconhecer a própria ignorância. Era um modo antagonista de atuar, uma insolência que atormentava os azarados recipientes que queriam tão-só ir trabalhar e não morrer mas, antes que se apercebessem, estavam já a justificar as suas mundanas, descartáveis crenças.
Uma vida assim só podia terminar (poeticamente) com a condenação de Sócrates que, numa ironia categórica, pouco fez para se defender.

Feitas as contas, que é um poeta a mais do que Sócrates a conversar consigo mesmo?


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Não desejo soar com desprezo; também eu choro repetidamente sobre os mesmos temas. Abdico, até, de escrever algo novo só pelo conforto de explorar o mesmo assunto, mais uma vez. A vulnerabilidade – esse cruel animal – exige sempre mais do que oferece e nem nos breves, belos momentos onde surge um qualquer esplendor, nem aí, nesses valentes segundos, oferece alguma forma de conforto. Esse querido doce toque d’uns braços famintos de nós, cúpula de males externos e terrores noturnos; o conforto requer uma crença qualquer, uma forma de sentir que não é vulnerável, é até o oposto: resguardado, imperturbável – utópico. E o poeta pode ser e cair nos mais desprezíveis vícios; mas nenhum poeta mente, mais rápido cai e desfaz-se no chão como uma criança do que mente abertamente, sabendo que mente e que engana quem o lê.

Não desejo soar com desprezo; mas por vezes canso-me da repetição. Quero ouvir o melhor dos poetas a dizer que se foda! e a subir o coração ao peito, na cavidade que lhe é reservada, e mostrar que há trabalho a fazer; que há sempre trabalho a fazer, a começar no exato momento em que se abrem os olhos e vemos um mundo deturpado. Que se lamuriem depois, dos jeitos belos que quiserem; mas primeiro que se aja, que se faça algo mais do que assistir passivamente ao fim do mundo.
Ou então que desistam; e que o advoguem.


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Eu queria mais altas as estrelas,
mais largo o espaço, o Sol mais criador,
Mais refulgente a Lua, o mar maior,
Mais cavadas as ondas e mais belas;

Mais amplas, mais rasgadas as janelas
Das almas, mais rosais a abrir em flor,
mais montanhas, mais asas de condor,
Mais sangue sobre a cruz das caravelas!

E abrir os braços e viver a vida:
– Quanto mais funda e lúgubre a descida,
Mais alta é a ladeira que não cansa!

E, acabada a tarefa… em paz, contente,
Um dia adormecer, serenamente,
Como dorme no berço uma criança!

soneto X – Florbela espanca

É assim, tão docemente, tão crua e despojada, que Florbela Espanca descreve o mundo ideal, tão semelhante ao de Platão. Difere, no entanto, na crença: Florbela vê-o como utopia, Platão crê nele como realidade; e são tão-só dois milénios que os separam.

Será que aprendemos assim tão pouco que somente vivemos em repetição? Repetindo o que os gregos diziam antes da gravidade, antes da física quântica, antes da perceção do Eu, da nossa posição na hierarquia social, do privilégio e desprezo inatos a quem nasce em cima de um degrau mais alto?

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