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Crónicas para dormir (XXII):
Incompetência e condescendência.


São horas de dormir segundo o relógio da regularidade mas umas crónicas não se escrevem sozinhas, não se estruturam sem o esforço de combater algo tão confortável como deitar-me de olhos abertos por entre o negrume e aceitar que adormecerei sem saber quando, só que perderei a consciência, a noção de mim – poderia tornar-se um poço de ansiedades, mas entretanto já me acostumei.

E sim, deitado de olhos abertos.

Quando os fecho, só vejo cubos e paralelepípedos, minhocas repartidas em cilindros com a perspetiva mais ou menos correta. Surgem como fantasmas cromáticos, alucinações que se projetam e se engolem umas às outras.
O mundo é, em parte, retratável assim, com tão simples formas geométricas, mas recuso-me a fazê-lo, a fechar os olhos e a interpretar assim o mundo, porque odeio simplificações. De que me serve saber o nome da estrutura que duas coisas formam, se é tudo o que sei sobre ela? Ou os corpos; tamanhas semelhanças não deveriam originar mentes distintas e contudo, cá estamos – cada um a viver o seu tempo com a unicidade que nada tem de poético, tudo tem de invariável (ou alguém pediu para nascer?).

Prefiro – e sou sincero – ser o mais ignorante, a recorrer as estas parvas encenações como escusa para conhecimento.


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Passa agora das horas de dormir segundo o relógio da regularidade e, mais uma vez, encontro-me deitado numa estranha janela temporal que desagrega o universo e expõe a maquinaria.
Na verdade, não o faz; é só o meu cérebro que, cansado, já não consegue unir as partes, criar a argamassa para preencher as lacunas por entre as coisas que sei. Afinal, o que há lá fora – o fora de mim, o universo – mantém-se igual ao que sempre foi, eu só não sei o que é e os meus sentidos brincam comigo e com as variáveis.

Vou-me olhando, entretanto – num sentido figurativo obviamente, já que estou deitado no escuro – para me distrair do desalento de não conhecer o universo e, se hoje entendo algo sobre mim que não entendia antes, é que sou filho bastardo da incompetência.
Acompanha-me desde miúdo, desde que, com 5 anos, tentei manter água na boca sem engolir, apesar dos severos avisos maternos. Para meu enorme desgosto, acabei a cuspi-la para o meio do chão num ato inato e descontrolado, ao fim de alguns segundos. Foi o meu primeiro contacto com as limitações; na minha jovem cabeça havia a crença desmedida que podia manter a água na boca pelo tempo que quisesse.
Por volta do mesmo período, lembro-me de brincar com a dobradiça de uma porta, novamente sob as protetoras ameaças maternas e, sem saber como ou porquê, entalei um dedo e perdi uma unha. Era a minha unha favorita, ainda para mais.

O que dizer: nasci com um toque para o desastre que, com os anos e o esforço, involuiu para a incompetência. Sou o fruto das limitações que descobri, do descontrolo mínimo em cada ação, em cada gesto. Aquele que faz rir os outros com um movimento desconexo, o que dá pena de olhar, a compaixão é tão bonita que me enche o peito de tempestades; mas nada me torna num assassino como a condescendência.

Resumindo, sou as mãos da aranha.


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Desculpem-me o abstracionismo; gosto de brincar com memórias e ideias e, a esta hora, todas ganham formas quiméricas na minha mente. Há um sentido para tudo isto, claro que há, mas vivo conformado com saber que se perde tudo aquilo que digo, não há volta a dar, é intrínseco refletirmo-nos nas coisas. Também eu, a ler um livro, jogo pingue pongue com as palavras. Tento encaixar-me aqui e ali e, se couber num ínfimo espaço, logo o livro se torna no meu predileto.
Levanta a questão: o que é sequer a crítica? O que é um génio? Eu deposito um esforço desgraçado para me retirar de cada coisa externa a mim, para aprender a não me impor, a apreciar o que existe independente e, nesse idílico desapegado estado, não há correto, belo ou justo – há, simplesmente.

Claro está que não posso pedir o mesmo do resto do mundo. No fundo, é uma questão de sobrevivência; e este estado de espírito não promove uma vida longa, só uma vida. Ponto. Já o indivíduo que se conserva só vai importar-se com aquilo que é dele, e o que é dele é tudo o que herdou do passado – material e moral. Pouca volta há a dar a crenças dessas.

Estou cansado… É espiritual. Queria acreditar nos signos mas, para meu mal, sempre achei tudo isso ridículo – é um exercício extenuante. Um dia, serei um louco a viver na floresta e morrerei na boca de um leão, a rir desalmadamente (eu, não o leão) enquanto ele me rasga a carne e me expõe as tripas.

Piadas que não se traduzem.

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