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O bicho cá dentro.


Ouvi um suspiro, ou fui eu ou a vida. Se fui eu, escapou-se-me sem me dar conta, mas mesmo tendo sido a vida – se é ela quem para aí anda a suspirar os fins de tarde de Verão – talvez na mesma seja a mim que as culpas devem chegar. Afinal, nunca fui indivíduo para fechar a mão; mantenho-a aberta e vejo o que vem, o que fica e o que parte. Não é só o vento; também o movimento do planeta transforma as minhas posses: as folhas secas de agora serão o pó de amanhã, e em menos de nada são insetos que cá vêm, as abelhas, as formigas, depois os grandes animais, o verde, o mar, e no fim – que é o início – um universo a florir, as crias a bocejar e os fins de tarde de Verão a retornar.

Ainda não encontrei nada mais belo do que um sistema a funcionar sem precisar de mim.


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É cíclico, é aí que quero chegar. Mas também que há beleza em cada coisa, até nas baratas que me enojam e que exterminaria, num impulso. Não sou Deus, afinal; cometo erros reconhecendo-os, ajo oposto ao que digo e ao que penso só porque, profundo, dentro de mim, há o mesmo animal que nos impinge a todos o viver; o mesmo bicho que se transtorna e se revolta perante os precipícios porque não quer saber os quando’s ou os como’s ou os com quem’s – só há viver e nada mais, e o raio do bicho quer viver.

Ainda assim, cá para mim, o bicho mente. Ouço-o todos os dias, é a fome e a sede, é o cuidado com as facas, os tropeções nas escadas, e o bicho treme o dia todo, chora todo o dia. Mais tarde ou mais cedo, vai urgir-me pelos filhos – logo a mim! Eu que vejo na procriação a forma mais aguda de egoísmo. Onde reside essa esperança que justifica uma nova vida?

Não há esperança; e é por isso que não há amor como o parental porque não há culpa como a de fazer alguém nascer.


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Mas, dizia, há beleza em cada coisa. Beleza, no entanto, é só uma palavra; apropria-se mais a um rosto. O mundo não é belo como um rosto; o ciclo que recicla a matéria de que somos feitos não é belo como um rosto, não. A beleza é o desapego; é saber que o sol é indiferente a mim, que participo neste fluxo em parte longe dele – já que a minha consciência concebe-o de fora – mas a carne do meu corpo foi a erva no solo e será, indiferente ao meu querer, os cães e os lobos, as aranhas e o vento, a água, a terra que virão.

Lá fora, o cão do meu vizinho empoleira-se no parapeito do quintal para espreitar o mundo. Em silêncio, os olhos navegam pelo movimento como nostalgia, a tal saudade de não-sei-bem-o-quê.

Um dia, vou ser os olhos d’um cão que não sabe de si – só os olhos, nada mais – e ele vai-se empoleirar também, no quintal dos donos, e eu vou ver o mundo, o recanto que nunca soube ver.

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