clxiii

Eu e ninguém.


Acordei com uma valente dor de garganta, das que pressionam a traqueia e tornam o respirar num esforço ativo. Só nestes momentos me apercebo de tudo o que faço sem saber, sem necessariamente querer também. No segundo que lhe ganho consciência – do respirar, neste caso – assola-me um profundo temor que não voltarei a esquecer-me dele, que viverei concentrado eternamente nesta respiração mecânica, requerimento físico de viver, e que os meus passos serão sempre contados com as inspirações e expirações, e os movimentos dos meus dedos e braços terão de ocorrer por entre respirações. Terei de suster o ar para assinar um documento porque se tentar desenhar um P a pensar no ar que expiro, o P será um rabisco, um gatafunho sem sentido que ninguém compreenderá.

Mas logo me esqueço.
A consciência da respiração é passageira, incapaz de se manter, o tempo vai-se em menos de nada e quando dou por mim já nem entendo o temor – o aperto aflito – que sentia antes. É um medo de crianças, uma infantilidade, a primeira vez que o senti teria menos de 6 anos e foi com o piscar dos olhos; tomei-lhe consciência e julguei-me no fim do mundo. Não foi, nunca é.


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Cada vez que engulo, no entanto, sinto o ardor indefinido da carne. A dor faz-se ouvir no vácuo, é um impulso de contrações e exigências que não se deixa ignorar, não se deixa escorregar para o subconsciente, esta berra-me de onde eu produzo os meus próprios gritos e impede-me até de gritar os meus. Acho que ela compreende a ironia, é certo que se ri de mim.

Tanto falo de coisas a rirem-se de mim que aparento ter baixa autoestima, mas não. Na verdade, sou quem mais me estima, de tal forma que tento proteger-me de todos os males que por aí andam. Gosto tanto de mim que me é difícil gostar de mais alguém, desapego-me facilmente, canso-me das birras e da gritaria quando é externa, desnecessária ou inconsequente.

Primeiro foi o meu corpo – daí a garganta não me preocupar – que deixei de querer saber. Se não morresse de claustrofobia, comia até mais não, bebia e afogava-me e deixava as feridas apodrecer. Contudo, não posso; sofro tanto como ele com a sua dor, pelo que faço o mínimo para o manter.

Depois foi a minha vontade; demorei mais a interpretá-la como à parte de mim, mas reconheci-lhe a exigência, a procura por razões para me expor publicamente e vindicar um planeta, um continente, uma abandonada região, um centímetro quadrado de terra. Não vi nisso qualquer vantagem, qualquer ponto a meu favor; deixei-a para trás.

Seguiu-se o desejo; mais etéreo do que a vontade mas fortemente espelhado no meu depravado gosto, no querer dos impossíveis e das desgraçadas esperanças – sem qualquer força motriz mas, ainda assim, irritante como o zumbido de um mosquito numa noite quente de Verão, já a consciência a escapar para o outro mundo e uma onomatopeia estraga tudo, assim é o desejo. Deixei-o também.

Por fim, o indivíduo; desfiz o Eu estava ele ainda em obras, em construção – foi mais fácil de o quebrar assim, desarranjado e vulnerável, sem estrutura para suportar o meu peso a cair sobre ele.

É do mais fácil que há no mundo, gostar de ninguém.


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A dor, como disse, faz-se ouvir no vácuo, e eu sou um inseto a viajar nos estímulos. Mal ela bate, no profundo, o ninguém contrai-se e treme como uma criança; mal ela se vai e desvanece e dá fim ao estímulo, o ninguém já se esqueceu e sorri-me e abraça-me. Quer prometer-me a calma, o sereno, o sossego inesperado do cansaço, a saudade de um antigo quarto, o calor de um toque terno – mas hesita. É que o ninguém nunca aprendeu a mentir.

Vivemos assim – eu e ninguém – neste refúgio de verdade austera.


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