clxiv

Ventos de mudança.


Correm os tempos; ainda ontem era alguém a começar a vida, hoje sou alguém que lhe vai dar início. Não parece uma sobreposição, mas é; a vida nunca aprendeu a estagnar.

São os ventos, os ventos de mudança; o planeta não nota, não repara que atirei a vida às redes e dei-lhe uma volta violenta, mas aconteceu. Senti-o em mim, o construir lento de um solo, um novo chão desconexo daquele que usei para caminhar até aqui.

Desenganem-se.
Não é por vontade própria. Ninguém aprecia as intermitências do solo como eu – um bicho de hábitos, um animal desregulado que matava por um eterno segundo perante a imensidão de uma planície alentejana, só para não virar o rosto e vê-la desaparecer.
Contudo, não se vive sem decisões, sem posições definitivas, e é talvez, chegando ao âmago, o que realmente nos distingue da restante bicharada: nós concebemos a definição do tempo, estruturámos os seus avanços e, neste ilusório controlo, estabelecemos ferramentas para antever a longo prazo. Mais nenhum bicho se preocupa com o tender da vida porque só nós concebemos a sua ausência.


Anúncios

Entretanto, há gente que a tenta estagnar; eu, certamente, ainda não descobri as razões para tal esforço. A vida nunca se irá prolongar para lá do que é suposto e, se algum dia o fizer – se a tecnologia não nos matar até lá – então que se arranje um outro nome; a vida é vida por existir entre a morte e coisa nenhuma.

E os filhos? – Pode alguém perguntar – E os genes que transmitimos?

Respondo que não podia haver pior razão para se reproduzirem; ainda o moço não nasceu e já tem como destino ser o oceano onde se afogam os progenitores. Para lá disso, se sou capaz de entender as obrigações hereditárias, já menos entendo quem não as evita, e sou uma espécie alienígena perante alguém que as busca ativamente.
De resto, fui sempre extraterrestre na minha vida, com breves intercalações de ser humano.


Anúncios

Agora, no entanto, sinto que já vão longe os tempos em que era alguém reconhecível; sou agora algo mais fácil, mais simples e, talvez por isso, mais passageiro e facilmente esquecível. Também não pretendo ser eterno; só viver este momento porque, de onde vejo, não tenho qualquer outro. O planeta vai morrer e eu também, estamos todos doentes de morte, o universo inteiro.

São os ventos, os ventos de mudança; nunca deixam de correr, de dar novos inícios a quem começou ainda agora a viver. Cada início é crescimento, crescemos todos os dias mas, como o tropismo nas plantas, entre nós mudam-se as vontades e, com elas, os sentidos de crescimento; e eu não afirmo ser o meu sentido mais certo do que o de qualquer outro.

Só afirmo ser o meu.

Não há passos errados porque não há destino; e não é essa a maior liberdade que conquistámos?

Anúncios


Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: