clxvi

Crónicas para dormir (XXIII):
A cultura Quimbaya e os fundamentalismos.


É tarde, mas não tão tarde como poderia ser – nesta penumbra há sempre um retardar abstrato. Preferia que a manhã chegasse e já tivesse sete horas de sono no corpo; cá estamos, no entanto, não há necessariamente alternativas a isto.


Houve uma cultura chamada Quimbaya que se desenvolveu na zona central do vale colombiano do rio Cauca, durante os primeiros noves séculos da nossa era. Um território fértil, com boas condições climáticas e uma antagónica abundância em ouro.
Os Quimbayas eram mestres a trabalhar ouro e cobre, desenvolvendo inúmeras peças através de técnicas como a soldadura, o cinzelado e a filigrana e com recurso a cinzéis, espátulas, facas, buris e maçaricos.

Seriam os espanhóis a descobri-los.
A conquista espanhola do território Quimbaya começou em 1539, num período em que existiriam cerca de 60 000 indivíduos indígenas, mas a resistência feroz que ofereceram aos invasores levou a um fim semelhante de tantas outras culturas ameríndias: o extermínio – neste caso, no período de um século.

Uma viagem temporal traz-nos a 4 de Maio de 1893 quando, em forma de agradecimento pela intervenção espanhola a favor da Colômbia num conflito com a Venezuela, o ministro plenipotenciário colombiano oferece o Tesouro dos Quimbayas constando de 62 peças de ouro e tambaca (amálgama de ouro com cobre) à rainha de Espanha de então: D. Maria Cristina Habsburgo-Lorena.

A ironia é o destino a divertir-se connosco.


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É domingo e segunda. Na realidade, é só segunda, já passa da meia-noite mas não a sinto, não sinto a segunda mas também não sinto já o domingo.
Para mim, a estas horas, são sempre dois dias em simultâneo num qualquer plano transcendente, não é real – no real eu sei que dia é – mas numa fantasia que crio e me perco ou que criei e me perdi e agora não sei bem o que fazer dela.
Já lá vão anos a passar aqui, intermitente, nos emaranhados destas silvas que me abraçam numa dor branda e progenitora. Foi aqui que me criei e me fiz homem; agora, nos novos tempos, já nem homem sou, mas visito apaixonado estas sonolentas terras, agradecido por as ter tido, por ninguém as ter roubado de mim, as ter colonizado num novo mundo.

Sem um tão extenso fruto de uma imaginação fértil, hoje não seria nada que se assemelhasse a mim. Quem eu seria, exatamente, é uma não-questão; ninguém é menos apto a respondê-la do que eu, já que foi o eu, este eu, que se escolheu por oposição a todos os outros, e ninguém aposta no pior cavalo, no pior cão, no pior carro, no pior conjunto de caracteres que estruturam um indivíduo.


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É tarde; ou é cedo. Quem realmente colocaria as suas mãos no fogo a apostar numa das duas? Eu concedo-me a ambas e não quero mais chatices, só o descanso de não me pregar a fundamentalismos. O mundo é cruel, o sexo nojento, a terra redonda e cada um de nós só quer a segurança de se sentir seguro.
Fundamentos?
Não; são jogos de linguagem, uma tentativa de dizer medo em mais palavras.

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