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Fraquezas.


É da minha natureza pedir perdão – em geral, pelos males do mundo; em particular, por tudo o que fiz, não fiz, farei e não farei, sei e não quis saber. É da minha natureza essa fraqueza, essa faceta empobrecida que carece de um olhar íntimo, fraterno, são estas as carícias a que me permito, os olhares, os leves toques, o terno deleite de ver um rosto conhecido. Tudo o mais é demais, exageros que magoam e nós todos acabamos sempre a magoar-nos uns aos outros, é invariável – como a água, os ciclos de dor perpetuam-se, não só na primeira geração mas nas que lhes sucedem também. Nós magoamo-nos pela dor que os nossos pais causaram.

Mas dizia – antes que perca o pensamento e já não o consiga focar nesta página (escrevo à mão, antes de me cansar com o robusto teclado) – que o perdão é fraqueza e defendo esta frase com unhas e dentes, só não concorda quem não é compulsivo com as desculpas, quem não transcreve os diálogos do dia-a-dia na esperança de os memorizar, que não me falhe a voz!, que não me falhem as forças para dar um passo, a motivação para pedir a mínima decência.

Um dia o mundo vai acabar e eu vou pedir perdão à poluição por termos demorado tanto.


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Desconfio que esta fraqueza se justifique com outra detestável, azeda mania: é que eu nasci já com um olho em cada esquina. É um costume que se infiltra no sangue e não o larga mais, que me persegue a noite toda e de dia também, só não em todo o lado: é nos cantos escuros, nas ruas povoadas, nos carros dos outros, numa qualquer energia que sinto – a linguagem corporal, a projeção da violência – e já não consigo despegar-me, posso fugir e esconder-me, correr, nada mais.

Ninguém tem culpa, necessariamente, é só este medo inerente que aprecia brincar comigo, faz-me temer adormecer, não vá eu sonâmbulo matar alguém; faz-me temer o copo a secar na bancada, não vá a sequência de eventos de lhe mexer, culminar na projeção de uma faca – uma que seca também na bancada – para dentro de um peito amigo.


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Eu sou lógico, prometo que sim; mas por vezes o mundo não é, não para esta limitada consciência humana em que me vejo obrigado a existir e a enfrentar as probabilidades da vida. O descontrolo é um teste exasperante à catarse, e eu ainda estou a aprender o que isso significa – o descontrolo e a catarse; por vezes não lhes vejo diferença, outras vezes parecem-me antagónicos. Até lá, até conseguir conciliar essas divergências, do-mal-o-menos confirmo sempre a tranca das portas, as bocas do fogão, que há espaço entre janelas para o ar correr caso um gás qualquer maldito me queira matar.

É deveras irónico.
Mais do que a morte, temo que ela chegue sem aviso; e não é por achar que a posso dissuadir. Apenas penso, convenço-me, que após todo o tempo a viver, é de um enorme desrespeito passar o último ato a dormir.

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