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O som das espingardas a matar.


Obrigo-me a evitar sentimentalismos; torna a escrita lamechas, um poço de lamentos egoístas, como a criança que chora quando ninguém lhe dá a afirmação pessoal que tanto precisa. Após todos estes anos, já não encontro sentido em mergulhar para descobrir as mesmas limitações: um aquário para exibição.

Quando leio, de uma vez, uma avalanche poética do Fernando Pessoa, dá-me vontade de ir ter com o homem enquanto ele escreve de pé no seu recolhido quarto e abanar-lhe os ossos, acagaçá-lo de medo, obrigá-lo a sentir os pelos eriçados, o coração aos saltos, a antítese do animal com o sapiens sapiens.
O Pessoa irrita-me particularmente; por nada mais do que a incessante experiência de me ver por entre as suas palavras, e recusar-me – numa recusa quase infantil de tal modo aguçada – a aceitar o sôfrego castigo a que ele se remete.


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Também para mim, seria tão fácil deambular nas tristezas, as profundas mágoas que se revestem de pele e se alentam e lamentam e aguardam, em desespero, por uma qualquer religiosidade. É por isso que sempre respeitei todos os outros sobre os poetas: exige um ânimo cego, desmedido, para ser algo mais do que alguém que escreve sobre si mesmo (é isso que eu tento, ainda que mal e parcamente).

Talvez por isso paguem eles, os poetas, o peso mais alto: viver nas bocas d’um mundo que os cita, o mesmo mundo que os desdenharia se vendessem hoje poemas na rua. Que o diga o Pessoa; ele que, sem saber, acabou com o perfil estampado em camisolas como um super-herói.
Eu sei.
Não há nada de errado com isso; mas também, eu nunca encontro algo de errado com nada. É sempre assim: surge-me um pensamento que desperta repulsa mas, ao examiná-lo, só encontro as minhas próprias convenções; o que tomei de religioso e crença; o que resistiu do homem que fui, desse enorme, complexo género masculino.

Claro que hoje vejo tudo de modo diferente; já quebrei algumas das barreiras, mas é tão mais difícil ver o que me prende quando me julgo livre (ainda que seja tão mais fácil estar preso assim). O privilégio é, sem assombros ou poetiquices, o mais complexo exercício de autoanálise.


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A culpa não é do Pessoa, obviamente, mas ele foi escolhido por mim como marco.
Em miúdo, bebi-lhe as palavras por ver nelas algo de único e sedutor, um extravagante amor fraterno. Hoje temo-as; mais que não seja, porque ver-me nelas é aceitar a supremacia do meu desassossego. O homem que vejo ali, a escrever versos em pé, considera-se realmente miserável; mas há tanta mais miséria, tanta maior violência no mundo real.
Até aqui, num campo aberto, num mar de tons dourados que se aprofundam pela planície; até nesta calma inconsciente se ouve ao longe, intercalados, o som das espingardas a matar.

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