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Sobre Desprezo.


Sou eu. Serei sempre eu.

Penso que carrego em mim o peso do desprezo que me serviu de molde. Ainda estou para descobrir arma mais forte para moldar, dava-me jeito, facilitava no processo de reestruturar os velhos hábitos, as cadeias de transmissão que se propagam em mim como berlindes, transferindo a energia de uns para os outros, o tal causa-efeito, até que me estigmatizam na personagem que age de mim.
É o desprezo; a base, a raiz. Sei-o como sei o que me deixou nauseado quando me sinto assim, é só pensar no qualquer alimento estragado que comi e vem-me o vómito à boca; assim é o desprezo. Nada há nisto de científico mas também a ciência vai-se cansando de tentar perceber o ser humano; há tantas outras coisas sobre as quais conjeturar que não se ofendem tão facilmente e, melhor ainda, não têm pressa para nos provar errado. É como um jogo da apanhada em que mais ninguém está a brincar.


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Ainda estou a aprender o que fazer com tudo isto. Esta informação que recolho sobre mim, é como ter uma fobia: sei o que sinto, sei o absurdo de tudo, não sei mais nada. Ainda sou tão incapaz hoje como era antes, de viver desapegado do desprezo. Ainda vive em mim o mesmo sem-abrigo descoordenado que tropeça na mão que alguém estende. Ainda sou, mais do que ontem, uma difusa criação contemporânea de um qualquer artista avant-garde.

Contudo, o tempo passa, esse relativo conceito que nos organiza, o tempo passa num movimento nunca certo e só vejo segurança – ou algo semelhante a tal – em aceitar que tudo isto pode ser em vão. Este esforço de me conhecer, de descobrir porque sou eu que falo e não o meu cão quando, certamente, ele teria tanto mais para dizer. É privilégio ser humano face às outras opções? Só sei que nenhum bicho pensa sobre o tempo e, ainda assim, vivem – connosco ou sem nós, domesticados ou selvagens, de natureza dócil ou violenta (violência diferente da nossa).
Faz-me crer que realmente não existem as tais verdades absolutas, só a definição arbitrária que nós criámos para verdades absolutas; e se assim for, é bom: sem absolutismos, não há certos ou errados, e só nos resta tomar um caminho, ou não tomar nenhum, ou saltitar por todos eles – é tudo o mesmo e coisa nenhuma.


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É ainda o desprezo, por entre tudo isto, que me desperta destas aventuras metafísicas. É ainda e sempre o desprezo que me mantém os pés mundanos. Afinal, se tudo é o mesmo e não há absolutos, o que é esta tresloucada vontade, esta irritação cutânea, este sincero desejo de pôr o dedo na criação? Não tenho ambições, só o sereno interesse de encontrar todas as respostas; e acredito mais hoje do que nunca que tudo nasceu do desprezo e, sem ele, nunca seria eu a escrever (seria outro qualquer, não há falta de gente assim).
O amor morre, a tristeza sossega; só o desprezo descobre raízes, só o desprezo aprende o caminho para a estrutura que subjaz a carne. Só do desprezo – camuflado em mil doenças – nasce o que ainda não encontrei melhor palavra para expressar: desassossego.

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