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Sobre Amor.


É mais raro agora, escrever à noite. Pela razão oposta à que inicialmente me fez escrever: agora adormeço tão velozmente que nem tempo tenho de escrever e esquecer o que escrevi; agora já só esqueço e depois desperto e já é dia. Por outro lado, dado o temer de adormecer com nada escrito, obrigo-me a saltar as hesitações e a deixar o texto tomar a sua própria tonalidade, os seus costumes. É um jeito de liberdade. Eu sempre escrevi noutras vozes, noutras perceções que não a minha, num constrangimento que se deitava sobre mim; mas descobri algo de doce nesta liberdade, algo que me aquece o coração, este músculo rítmico que entoa o primeiro som que ouvimos, e num ciclo recíproco aumenta-me a vontade de escrever. Sinto-a, esta vontade, como um ato revolucionário, uma revolta carente que não sabe de si ou do mundo; mas não faz mal, não faz mal se tudo permanece o mesmo – se eu sentir que estou a mudar algo, que estou a criar mudança, vivo feliz. Mais contente.


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De qualquer forma, já nem sei bem o que é estar triste. Não é privilégio, por mais que assim soe, só um perverso exercício de autoanálise que não se satisfaz com um termo que é em nada singelo, que contém em si um universo de ações. Ninguém está triste, acredito, só é mais fácil dizer-se triste do que entender o que o corpo reflete, e ninguém nos ensina a entendermo-nos. A mim, pelo menos, ensinaram-me o reverso de mim, a olhar-me como se vê as varizes nas pernas. Se depois aprendi a estruturar-me, foi porque há em mim, permanente, um desejo de segurança, de proteção, de me entender para que possa entender o meu lugar no mundo.

Mais do que a tristeza, é nesse desejo de segurança que vejo algo de universal (se é que algo assim pode existir). Por vezes é óbvio, nas palavras que as pessoas usam, nos olhares e gestos, pequenas partículas de tempo em que se expõem sem saber; é óbvio nesses momentos que procuram uma absoluta e total confiança de estarem seguros. Infelizmente, nunca estamos; quer nas profundezas de um bosque qualquer ou no mais alto arranha-céus, há sempre algo que nos consome e nos despreza, as dores próprias a existir, a saudade, a morte, as doenças e o declínio intrínseco de um corpo que não tem como sustentar a mente que o possui, não para sempre.

Acredito talvez que algo assim esteja na origem do amor: uma crença comum numa proteção recíproca. São as evidências que destabilizam as relações, quando elas entram, invariavelmente, ora de um lado ora do outro.


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Portanto, eu não estou triste. Por vezes, somente, deixo o corpo submergir. Afundo-me numa qualquer substância, não sei bem o que é e descrever algo difuso, sem peso, sem dimensão concreta, é um exercício infrutífero que não me traz nada de bom. Há que aceitar as nossas fraquezas se se pretende chegar a algum lado; e eu quero resultados. E quero gostar de mim. E quero bajular-me como uma criança, porque não há espaço para crescer no desprezo e no desrespeito.

As metamorfoses dão-se a todo o momento; é a natureza a renovar-se. O mundo só é realmente belo quando se aceita que não é nosso.

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