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Perdão e nascimento.


Sintético universo, sinto as garras a perfurar o chão, a distender os limites da realidade para me envolverem. Só depois, quando as garras assentam sobre mim, é que ganho consciência de se tratar da minha pele, a mesma que me adere ao solo e me mantém coeso num só ponto espacial. Quando a sinto, no entanto, quando os meus dedos percorrem as reentrâncias e o dedo sente a pele e a pele sente o dedo, numa bizarra dualidade que não existe em mais nada, só em cada um de nós connosco mesmos (de resto, nunca nos sentimos no que é sentido por nós) – quando se dá essa experiência, há algo que é despertado em mim. Uma estranheza, um recanto que se ilumina ao longe, só o vejo como um ponto contrastante de luz que não se apresenta nem permite comunicações; questiono-me se me perdi daquela casa e me esqueci que foi dali que vim, que foi dali que o mundo me trouxe e me negou a mais simples natureza: a de existir longe de tudo.

Ainda aguardo, ternamente – é o único modo sadio de aguardar – que deixe de orbitar em torno dessa tal esfera de luz que se ilumina. Gostava de ter um vislumbre desse recanto por que anseio ou então não o ver de todo; mas é o meu corpo magnético que não me deixa aproximar, é o meu corpo magnético que não me deixa virar costas e dar-me de vez ao ser finito e concreto deste lado do universo.


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É o padrão que aprendi, o dos lamentos. Irrito-me sempre quando o leio nos outros mas também eu recaio sempre aqui, porque é tão fácil ansiar mais um bocado, usar este desejo, esta vontade de sucumbir docemente, como força motriz para me sentar, como terra sobre um corpo que se deita, não era para ficar ali deitado mas é reconfortante – a terra é quente com as faíscas que vivificam – e não há conforto ao levantar.

Poderia culpar tudo isto ao nascimento. É categórico, afinal, o nascer sem qualquer escolha e ninguém me dissuade que é essa a origem de todo o mal. É tão fácil assim remover culpa, negar autoria nas transgressões. As erosões que causamos no solo por existir, são desculpáveis pelo descontrolo do nascimento, do desgoverno emocional que é não ter mão na nossa origem. Mato porque nasci, e só as plantas descobriram forma de viver sem matar; teria sido certamente a minha escolha: uma homenagem ao sol pela manhã, todos os dias, ao girar o meu rosto floral para ele, até tornar-me em alimento ou ceder espaço aos meus filhos, sementes do meu ventre.

Azar o meu, no entanto, que são falácias todos estes perdões; e eu não sei mentir-me abertamente.


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Tenho as forças carregadas nos braços, e é nessa potência de ser tudo que encontro o contentamento. Abomino atualizar estas potências; ao tornar-me algo, removo tudo o resto que poderia ser. Talvez por isso me assombre a velhice: agora, ainda posso esperar para ser velho; quando lá chegar, já nada terei e não sei se alguma vez vou descobrir como se ama o que se tem.
Durmo à noite na ânsia de acordar; passo o dia em delícias com a imagem do encosto noturno na cama. Anseio sempre por ser quem serei.


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