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Vêm aí as autárquicas.


Vêm aí as autárquicas; sei-o pela única certeza que realmente me convence, a mesma que presencio todos os anos em que há eleições: cantigas populares com os nomes dos candidatos.
É uma experiência tão ridícula – ouvir as vozes unidas num “E salta, Rio, e salta, Rio! Olé! Olé!” e ver uma das figuras (e poderia ser qualquer outra) da política nacional a saltar entre os corpos e as bandeiras – é de tal forma bizarro quando me exteriorizo dos apegados costumes que chamam a tudo isto uma campanha normal, que me faz crer mais do que nunca que nenhuma ação ou pensamento, por mais extraviado que seja, pode alguma vez ultrapassar os limites do normalizável. A questão só se prende em saber se o povo o quer normalizar; assim que a multidão se decide, o insólito passa a normal, a esdrúxula a corriqueiro, o grotesco a desejável.


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Apesar disso, ainda estou para ouvir um lobo a queixar-se da própria alcateia; ou qualquer outro animal a lamentar-se em condenação da sua respetiva comunidade selvagem. A verdade, infeliz, é que não há força que consiga derrotar um coletivo, que com maior facilidade não derrote o indivíduo; já o contrário – ou não fossemos nós a prova disso mesmo – não é bem assim. Por isso, também eu não tenho como me queixar; sem esta comunhão de mentes, de quereres e vontades, eu certamente não estaria aqui a escrever com tom irónico sobre ela e, quiçá, nenhum de nós; pelo menos as probabilidades tendem para o nosso completo extermínio (cada um no seu canto) se não fosse esta entranhada confluência que apela à perpétua vizinhança.

Faltam-nos as forças para sobreviver sozinhos e, a mim, faltam-me as forças para me iludir com a comunidade e as promessas de um avanço linear e ascendente para uma qualquer matura visão do mundo. Eu gostaria de acreditar, mas entretanto vejo o Rio aos saltos e quebra-se tudo, lá se vão as minhas ilusões, para isto preferia os circos onde tudo é mais jovial e, como ninguém se leva a sério, há uma sincera euforia nas lutas de tartes.


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O Rio, entretanto, vai saltando. Eu não sei se a ele aquilo faz algum sentido – desconfio que não, já que o homem certamente teve de pôr algum esforço para chegar à posição onde se encontra, e não me parece que tenham sido estes emocionantes saltos o que a sua fértil imaginação concebeu – mas, ainda assim, vê-se o homem na necessidade de o fazer, já que é o povo que vota e, por isso, é o Rio que tem de saltar para que o povo vote no Rio. É assim que o povo vê que ele até é divertido, um homem como os outros, e por essa simples mas poderosa imagem, o Rio certamente vai saltar sempre que cantem. No fim de contas, quando o povo vai à cabine, no papel vê as imagens, e a mais convincente é a que lhe parece mais familiar, uma cruz no homem bom, que me sorriu no outro dia, que me apertou a mão ao almoço, que saltou quando cantámosE salta, Rio, e salta, Rio! Olé! Olé!“.


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