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Sobre Segurança.


Deito-me à noite e penso no irrealismo de viver e interagir com o mundo, com as peças que o preenchem, sem realmente arranjar forma de me convencer da sua realidade. Por vezes, entre conversas, invade-me o pensamento da pessoa à minha frente ser um intenso produto imaginário e que as palavras que lhe saem da boca poderiam sair de outra boca qualquer, de outro rosto, fosse eu capaz de controlar essa minha possível faceta criadora. Outras vezes, assombro-me com as sensações: procuro aprofundar uma delas – uma dor qualquer, por exemplo, uma má disposição – mas quanto mais o pensamento foca na busca de um alvo, do ponto preciso onde ela nasce e me importuna, e quanto mais tenta desfiar a dor, compreender-lhe a essência, as fibras que a estruturam, mais a dor se desvanece como uma mão que atravessa um corpo projetado e mais eu me perco e me confundo e já nem sei se em algum momento chegou a dor realmente a existir.


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Deito-me à noite e penso em tudo isto como uma invasão alienígena. O confronto, no entanto, entre a mente que possuo e estas perguntas que se propagam pelos séculos é quase anedótico, pois é certo que amanhã e para todos os restantes dias será na crença de tudo ser absolutamente real que vou fundamentar as minhas decisões. Eu, como qualquer pessoa, ao dar um passo, abrir uma porta ou erguer um livro, estou religiosamente crente que a realidade que eu perceciono é igual para todos e que em todos os outros, as restantes mentes produzem, estruturam, retificam e condensam informação exatamente como eu. A verdade, no íntimo, é que não há uma escolha nesta crença: viver é o primeiro fundamentalismo a que nos dedicamos e nasce numa idade tão virgem e prematura, que até o ato de o questionar – o que é realmente este viver? – soa ímpio, profano, contranatura.


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Deito-me à noite e penso, por vezes compreendo com certeza até, que nada disto realmente importa. São breves momentos esses, mas surgem ansiolíticos, um coração que relaxa, e o cérebro perde parte da ortografia, da pontuação linguística, e fica somente uma ténue linha de palavras que se seguem umas às outras como o movimento de uma centopeia. O que importa tudo isto, afinal, nada disto importa; e se importa, não é por nos dar qualquer resposta, todo este questionar, mas tão-só por ser o combustível e enquanto não tivermos como nos provar uns aos outros, será isso a manter-nos inseguros, tementes do próximo, diminuídos por um medo que nos sobrecarrega, e nesse desalento, nesse desassossego, nesse perpétuo estado de vigilância que nunca nos dá o conforto de uma absoluta certeza – nesta intrínseca condição humana, é inevitável a violência, o caos, os absurdos que nos tornam macabros; mas também o que é fraterno, o que é comunitário e partilhado se invoca. Por entre e profuso, é a arte que expressa tudo isto; a arte é a catarse do nosso mais íntimo e primário desejo: a cega certeza de nos sentirmos seguros.


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