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Viagens. (IV)


Esqueci-me de tomar em conta o tempo e são às dezenas, os dias, atravessam num clarão e recordam-me que posso sempre ser isto, se nada mais resultar: posso ser a neblina que se intromete, deixar os dias a crescer nos seus brandos campos e dar-me a única função de os regar. Não sou jardineiro ou agricultor; tão-somente sirvo a função de verter o recipiente e deixar a água cair, nos seus próprios jeitos que eu não controlo, e afogar-se no mar de terra que tem sede, que nunca deixa de a ter.

Posso ser esse suave movimento, o de verter.

É só quando me sento, neste autocarro por exemplo, onde me vejo forçado a reconhecer que estou mais velho – há barba por fazer, a janela tem um mundo que corre em desespero, num desalmo que me atormenta, e o motorista sabe que tem as suas próprias horas para cumprir; neste frenesim de movimento, não posso negar que os ponteiros do relógio não repetem só o dia, porque ontem eu não estava neste autocarro e amanhã também não estarei e se não tomar rédeas à vida, estas vastas viagens de autocarro vou torná-las mais ínfimas, mais distantes, até estar velho e acabado, cinzento e decrépito, sem decisões para ponderar.


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Aqui, no entanto, quando me sento e não me afogo nas palavras de outrem – e há tantos que escrevem e que escrevem tão bem, podia dormir no eterno achego desses folheados corpos – aqui vejo todo um mundo que não se acanha de esplendor, que não teme a violência que eu temo, mesmo estando nas mãos de uma raça opressora que o mata porque tem de comer. Vejo o florescer da vida, do universo que circula em redor de mim, os pontos naturais que se entremeiam pelo radical urbano e, num transpor metafísico que a ciência ainda está por explicar, estes pontos fulcrais do mundo, que resistem ao invasor ao penetrá-lo ativamente, esta mesma inquietude que rasga as calçadas, chega-me ao peito e aos pulmões, respiro a sua profusa vida, o absolutismo; e de súbito sou devoto à natureza.

Mas já vivi isto antes; o mundo é sempre violento.
Antecedo, por isso, os meus próprios pensamentos românticos e desligo-os. Já não suporto estes fúteis momentos de ternura ambiental e, com os anos, estas intrusões ganharam uma repetibilidade que me permite antecedê-los, num visual surrealista em que agarro o que está por trás de mim dentro de mim, como quem vai coçar as costas, e obrigo os pensamentos a aguardar. Escapa sempre um ou outro, até porque são como serpentes e assim que os agarro, deambulam o corpo em chicotadas; mas suporto bem quando vêm à vez, é até doce sentir o mundo moderado. Tudo o resto, no entanto, o tal absoluto que me ergue deste chão, é dor que se planta, o mundo é violento, a violência cresce sob os meus pés, eleva-me e, num momento, deixa-me cair desamparado.


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Já está a chegar, o autocarro, ao seu ponto de paragem. Eu vou sair aqui, uma cidade diferente da de onde entrei, mas os meus olhos focam-se nos mesmos perigos, nos mesmos rostos onde procuro hoje e sempre o que encontro em mim. Nunca sei se é isso que vejo neles ou outra coisa qualquer. Há de haver gente boa por aqui; mas saberão eles porque são bons?


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