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Viagens. (V)


Já é noite, o sol tombou como num dia de inverno, trazendo pouco do anoitecer na pressa do descanso. À noite, reverbero nas viagens. É um som sintético que se destaca na mesclagem de tudo o resto: o motor aos saltos, os pneus de encontro ao asfalto, a rádio que o motorista ligou por companhia, e outros tantos que, de tom baixo, vão conversando ao telemóvel. De vez em quando, há quem se esqueça de onde está e ruge um riso alto, dos naturais entre amigos, mas não são amigos que o rodeiam e, por isso, ninguém se ri de volta, só se seguem os suspiros cansados de quem já não tolera os pequenos desrespeitos. Uma tosse aqui e ali, um fungar para passar as horas e, universal, os olhares que se perdem na penumbra como o arrebatamento do fogo – eu sinto-me sempre a aguardar nestes momentos, uma espera por ver surgir algo, da fogueira e do negrume, esse incerto sentimento patriótico que aguarda pelo retorno do rei no nevoeiro. Ele nunca veio e, agora, somos nós essa simbólica figura, a atravessar os húmidos ventos da memória, num desejo de chegar que transcende quem nos espera.
Que ano é? Podíamos ficar aqui para sempre.


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Não sei porque o faço, porque escolho viajar entre estranhos num retângulo motorizado que não me poupa tempo ou dinheiro; mas há algo aqui. Há algo nos autocarros de longo percurso que me intriga e a atmosfera, assim que cai, que colide com os nossos corpos, envolve-nos a todos na mesma humanidade – a possível, a cansada que só quer chegar onde quer que seja que tem de ir. Acho que nunca nenhum de nós vai lá chegar; mas desejamos todos o mesmo num sentido abstrato e, para mim, por uns momentos (e que são horas senão momentos?), há reconforto em sentir-me no movimento do oceano em vez de alvo de ritos empáticos. Já estou cansado de ouvir falar de todas as coisas que existem; contento-me com uma só fábula, uma história para crianças expressa em palavras que entenda e que signifiquem algo para mim.

Entretanto, acho que o motorista também já está farto, já se juntou a todos nós. Noto-o pelos movimentos do autocarro: eram suaves ainda há pouco, agora acelera desalmadamente para chegar mais cedo à curva onde tem de travar. Será o utilitarista nele que o convence a não se espetar? Consigo sentir o conflito no seu espírito: o desejo de dar a viagem por terminada, o medo que lhe mantém as mãos no volante.


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Caiu o silêncio agora; até os que gostam de nós, já se cansaram. As nossas vidas estancaram aqui, encerrados no mesmo retângulo impermeável à passagem do tempo, neste limbo em que se suspendem as existências; mas lá fora, como sempre, sucedem-se os movimentos e forma-se o tempo – que é uma questão de sucessão – e todos têm para onde ir, algo para fazer; não se pode esperar para sempre. Cá dentro, não há sucessão, não quando cai o silêncio assim e todos estão imóveis nos seus lugares e as janelas não têm nada para mostrar para lá dos nossos próprios reflexos. Eu esperaria aqui para sempre, dentro deste sereno universo. Ficaria na indefinição, neste entremeio ansioso, este intervalo que anseia. Tão mal se fala da ansiedade, mas é por ser livre que anseio, é por ansiar que sou livre; se não fosse, seria conformado, resignado à falta de alternativas. É aqui, no entanto, na margem de qualquer decisão, na fronteira dos possíveis, na ânsia das possibilidades; é onde encontro a atração pelo negrume, pela fogueira, por uma qualquer inocência idealizada.


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