2021.


O ano já se deitou para dormir, aguarda agora pelo fim das utopias. As pálpebras pesarão, como o vento que detesta o movimento, e o cansado corpo que se manteve por pura paixão unânime da humanidade, poderá finalmente esquecer os homens que o criaram. Assim virá o mar para o afogar na imensidão, o mar imenso que é o início e o fim de tudo, onde morrem as memórias, as linhagens que se perdem, os segredos que as palavras não conservam.

Não o tomem por tristeza; tudo tem apenas o momento em que se dá, o presente em que se confessa absoluto e que termina, ainda eu não tive tempo de o pensar. Logo depois, tal como antes, já não é nada, já nada foi ou será. O que se perde, só se perde para nós, que queremos sempre tudo, numa eterna ambição de não deixar nada para trás. A história, que estuda tudo o que nós fomos, é a tentativa científica de nos manter, a expressão racionalista do abismo que ecoa a nossa voz, até se calarem os ecos.

São estas utopias que os anos herdam uns dos outros, as que movem a ciência e a evolução. Mal adormeça o ano que termina, o novo ano logo dará à costa, exausto do movimento contra a maré. Os grãos de areia alojados entre as unhas e a carne porque se arrastou e rastejou, humanamente se esforçou para se individualizar e do todo ser uma parte, do absoluto ser um momento, da natureza que nada se importa com estas abstratas definições que criamos – como o fim e o início dos anos – dela nascer algo plástico onde os homens vão beber e cobiçar as utopias.

Como os homens, também os anos morrem frustrados, quando se deitam para dormir. O real bebe dos sonhos só as linhas diretrizes, e para cá e para lá vai oscilando os homens, dançando nos seus olhos o real e a ficção, a melancolia dos reis que virão, dos presságios da mudança, uma ambição que não se mede aos palmos mas aos infinitos.

Os anos morrem no mar, quando vão dormir, cansados da humanidade e ávidos pela harmonia de um absoluto relento. Os homens dormem nas lágrimas, quando vão morrer, descaindo o rosto para o sufoco da solitude e julgando-se ímpares na desilusão.

Que dizer de um novo ano?
Que herdará do anterior?

A verdade é que não importa assim tanto. O mar nunca se demora por demais, e é do intrínseco dinamismo que o mundo se sustenta. Tudo é efémero, também a angústia e a desilusão. Se os homens se matam ou se se encontram, se se recolhem a um canto ou se se estendem, o mar nunca irá moldar-se por nós.

Somos nós a habitar a natureza, jamais a natureza habita em nós.

Que venha o ano, então. Que venham as palavras que o estruturam, e o universo de afazeres mundanos. Que a saudade me informe pelo que anseio e a melancolia pelo que perdi ao ansiar. Navegarei, também, por entre todos estes sentidos que, de uma maneira ou outra, em discrição ou em êxtase, sempre me orientam, me elevam e me resignam.



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