Procurar Portugal nos castelos.


A filosofia é incessante. Por onde se estende o pensamento, seu paralelo, estende-se a filosofia. O pensar interiorizado, que pode até olhar para fora, para o mundo que se materializa como plasticina que os dedos amassam e estruturam, mas reflete esse holofote para si, num retorno à fonte. Quer entendê-lo – o mundo – sempre a mais do que quer vivê-lo.

Viver é, afinal, a repetição dos moldes. Os limites são sempre os da matéria. Os contornos são sempre os da cultura. A filosofia, contudo, não é um mundo novo, também não será um infinito; é antes um procurar às cegas, sem nunca saber se algo há sequer para encontrar. Tateando os abstratos que nos são bizarros porque não nos pressionam os nervos, é a consciencialização de nós próprios, primeiro, e depois talvez de tudo o resto.

Numa relação de antagonismo lúcido – como a mão que se estende na indefinida escuridão, equivocada com tudo o que sente, até que alguém acende a luz e tudo retorna às suas estruturas – sempre encontrei um sentido nas procuras, que vi fugir de mim nos encontros. A filosofia, sendo no melhor dos casos, uma incessante busca por algo incognoscível, pareceu-me perfeito e apropriado. Afinal, são os mesmos moldes da matéria e da cultura que definem uma causalidade entre a procura e o encontro; e como tudo é, nesta dimensão sensível, uma demanda – o chegar e o partir, o educar-me, o criar e o definir, o desejar-me – também tudo exige a descoberta, uma aparente plenitude na finalidade.

Os meios avaliam-se pelos fins, na voz do quotidiano.

Contudo, a filosofia só sabe que procura. O ato mantém-se, não pela certeza de um encontro, mas pela potência de dedicar o pensamento a um diálogo onde o passado se projeta para o presente, e essa massa indefinida que cresce do mesmo chão humano em todos os tempos, não pretende nada mais do que ser pensada. Criam-se abstrações diversas e divergentes da raiz fasciculada do pensamento, reservando-se, por vezes, à própria língua onde nascem a aptidão para lhes conferir sentido, para promovê-las a inteligíveis. Em última análise, é ao povo que as acolhe que recai a responsabilidade de as manter, enquanto singular projeto da humanidade.

Em Portugal, reerguem-se castelos. As pedras deles todos já não são nossas. Reerguem-se as igrejas românicas; colapsa-se o que existe para recriar o que existiu, não vá a natureza das coisas deixar que elas morram como os homens que as criaram – desses que ninguém já recorda os nomes. Mantém-se o património sem uso, como se não fosse a utilidade a estruturá-lo e a dar-lhe significado; designam-no imaterial para que abranja o que não existe.

É identidade que se procura?

Nos castelos demolidos e reerguidos, despidos do compósito de mãos que os criaram, já não reside nada definitivo. Entretanto, no maior dos duelos da razão, deixam-se asfixiadas as vozes que, portuguesas, falaram dos problemas do mundo. Atiram-se aos lobos as gargantas que desbravaram um mundo em português. Arrasam-se os campos, tão árduos de criar, frutos de uma renúncia herculana da condição pequenina do pensamento. Do que aí nasceu, nesses terrenos de luta inquieta, da demanda inconformada dos que pensaram por entre a língua e o olhar lusitano; esses sentidos advindos da violência sincera e abnegada, esses vão morrendo com quem os sentiu. Ninguém os mantém, ninguém se dedica à continuidade, à penosa dialética entre o passado e o futuro – o esforço que define a individualidade de um povo.

Procura-se, em vez, Portugal nos castelos. Já de entre os que morrem, conformados na condição humana, só os mais sortudos renascerão em formas de bustos e citações, em caricas e porta-chaves, ou pintados nas paredes para encobrir a degradação das cidades onde se erguem, ostensivos, os castelos restaurados.

São, talvez, os sintomas de uma sociedade imediata. Procuram-se sentidos rápidos, dos que se fundam nas aparências, como as pedras dos castelos que delimitam os vazios internos. Só que estes vazios não são inócuos; criam mundos onde se confundem patriotas e humanistas, onde se perdem os juízos aprofundados em troca de breves noções gerais que nunca informam, só motivam e justificam. Teme-se o pensamento, como um qualquer animal selvagem que não se compreende.

No seu país Antero era como um exilado dum céu distante” – disse Eça sobre Antero, num país que não se quer conhecer, senão pelas recorrentes ondas dos frágeis simbolismos da ignorância.



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