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Perante semáforos.


Diante de um semáforo que austero emite uma obrigação encarnada, vejo-me tenso no reflexo difuso de um vidro que também em parte transparece o que coabita no exterior. O vidro, por si, determina a divisão do interno e do externo, a familiar dualidade que transpomos para todas as coisas. Há sempre algo que me pertence e algo que rejeito; a diferença entre nós, entre cada um e entre os conjuntos, é onde se deposita o vidro, a fronteira, a bárbara segregação apologética.

Algo há, no entanto, de conciliante nesta crença que as cores distribuem, na paragem obediente – minha e dos carros ao meu redor – que a luz sinaliza, apesar de ser uma noite calma, que dorme calmamente, e de o ruído que aqui chega ser da serena simbiose dos animais na natureza, símbolo de riscos ausentes. Poderíamos avançar todos e nunca ninguém saberia para além de nós – os três veículos e os seus respetivos passageiros – mas parámos em vez, com a influência do vermelho, e aguardamos a indicação alternante.

Haverá quem diga que é o medo das multas, o valor monetário acrescido que adere ao reino da ética; mas eu pressinto algo diferente, e num desejo de ordem, de coordenação dos atos e das consequências num universo amoral, confiro a tudo o resto este amor puro e assumido pela segurança. É por isso a ela que atribuo esta ordeira obediência plural – a da sinalética luminosa – que rege a sempre precoce ligação do veloz futuro com o passado caminhante (os peões também têm os seus semáforos).


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Ninguém que se debruce sobre o sistema rodoviário pode desconfiar do engenho humano. À semelhança da constituição e das religiões, é uma estrutura arbitrária, criativamente sustentada e sobreposta à realidade como uma teia. É, de resto, tão resistente quanto a crença que lhe conferimos, e os exemplos dos despistes, dos atropelamentos, dos embates frontais com projeções de corpos, são ferramentas capazes e suficientemente neutras para que a obediência não seja tida como submissão.

Não há nada que o povo mais rejeite do que submeter-se. Se, no entanto, um povo informado rejeita as fontes autoritárias porque reconhece as incongruências de monólogos fiados, as asperezas das falácias repetidas pelos séculos e atulhadas das mesmas ficções e utopias; se, um povo informado, consciente, auspicioso, não resume o seu destino, o seu devir, à mais fácil ilusão, à mais grotesca provocação; um povo ignorante, constrangido no seu pequeno mundo absorto, vai construir sentidos nas mais bárbaras convicções, vai generalizar o pouco que conhece ao mundo incognoscível.

O que procuram eles ali? O que lhe fundamenta as convicções? Temem a violência do contemporâneo, a quebra das tradições, o questionar do marca-passo, a ameaça às fronteiras estruturais que edificam quem nasce em determinada época, determinado contexto. Porém, o que os seduz na romanesca, redutora exaltação abstrata do passado? De onde emana esta neurose obsessiva?


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De súbito, enfim, insurge o verde. A alternação da cor restabelece o movimento. Se alguma coisa, relembra que tudo isto é transitório e, no fundo, insignificante. Também a memória é seletiva, também a humana experiência é individual. Estes problemas, embora seja costume a nossa intervenção, não nos dizem respeito; são sempre os problemas do futuro – próximo ou distante – que nós apenas encaramos para nos iludir de um fim diferente, um prolongamento indefinido do nosso nome, da nossa pessoa, do que nos faz e nos define. Mas não é, ainda, precisamente isso que queremos; o desejo mais profundo (e talvez o único honesto) é o de escapar à nossa condição – nós; não os atributos, não os qualitativos, não os adjetivos. A raiz profunda que se evade por vergonha; o animal eterno ferido; o original, gutural sentimento, criador e fundação dos outros todos. A contínua insegurança, o desejo de proteção, a violência e o descalabro que arruína, qual doença, tudo em que toca – em tudo, metamorfósico, o organismo expressa a intenção de se precaver contra a incessante decadência. Até perante semáforos.

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