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O corpo moderno é um corpo sentado.


Nada mais do que um olhar em redor, e sei que o mundo ainda não parou de acelerar. Gostaria que o meu pisar no travão estivesse conectado ao motor, ao engenho que sustém a máquina, esse que rege as ambições sociais; mas é um carro de brincar, o travão é só plástico e a minha vontade depõe-se. Deponho-me eu todo ao mundo sempre veloz. Que posso eu fazer num carro de brincar?

Hoje, vive-se no âmago de um mecanismo emergente. O coração já não nos centra, e não me refiro a utópicas recriações de sentimentos – falo da fragilidade humana. Falo do contrapor de todo o mal e todo o bem que posso fazer, as volatilidades que se deparam perante mim e exigem de mim uma escolha. Não é só o não haver um ponto fulcral humano que domine a realidade, a construção das instituições e das moralidades; é o matar deste homem frágil o maior crime moderno.

A sociedade, a grande escala, remete para os pequenos desejos, os mais facilmente comerciáveis. O prazer de ter na mão a solução para a enxaqueca; o prazer de ver o mundo a duas cores sinalizadas; o prazer de aceder aos confins da intimidade, de me entregar – a minha validação – aos olhos que me objetificam. Satisfaz; e por um momento somos tudo, todos os sonhos e perfeições. Depois termina; e somos nada, um profundo desespero que se despreza, e que projeta esse desprezo em tudo o resto, porque tudo está errado, somos diabo e imperfeição, desgosto e finitude.


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O dia termina com o sol a adormecer nas suaves sedas brancas, mas a eterna luz deste mecânico organismo esconde o descanso, o discreto deleite de um fim – não vá alguém pensar na morte. Queria ver a imensidão pontilhada, a que me faz pequeno, que me recorda de ser tão-só um meigo anónimo, irrelevante. Em vez, sou bombardeado com a minha unicidade; a publicidade diz-me que nunca houve ninguém como eu. A inestimável criação que me criou para criar não me dá descanso, porque tenho sempre de me fazer homem, de esquecer os dedos que tenho – que se estendem e encolhem – as pernas que me erguem e me deitam, as estruturas nervosas e os tubos, canais, orifícios. Tenho de esquecer este corpo dinâmico, em eterno movimento desde que nasce até morrer, e segregar-me ao entregar-me a este ilusório dinamismo que se apresenta num ecrã.

Tenho de o fazer; porque este produto do engenho humano autossustenta-se e ameaça-me com atrasos tecnológicos, o fim da informação, a desatualização cultural, a desumanização, a perda da minha espécie, do lugar dela no mundo. Vejo-me na obrigação de chegar sempre mais cedo ao partir sempre mais tarde; na necessidade metafórica de correr para a abstração das metas. O autocarro é sempre mais veloz do que o meu passo, as minhas mãos são sempre mais lentas do que o processamento de dados mas pelo menos, por entre tudo isto, por entre toda esta dimensão de exigência socio-tecnológica, há sempre um assento para mim; e eu só me quero sentar.


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Sento-me para trabalhar. Sento-me no transporte que leva e me traz do emprego. Sento-me por entre: para comer as refeições por que esperei sentado; para ouvir a televisão a perspetivar o mundo; para ler as justificações da guerra; para sentir aquele retrato do prazer, a centelha do que poderia ser a vida se não fosse o cansaço. Faltam as forças ao homem (plural e agénero) no fim de um dia de trabalho, de catálises sensoriais que o esgotaram ainda antes do sol se vislumbrar sobre os arranha-céus. O dia termina, e o homem cansaço no seu corpo sentado, deita-se para dormir.

Profundo, na raiz de toda esta megalomania – da arrogância de querer controlar o mundo ao desapego de comprimir a mente a um ecrã publicitário – está uma descabida noção própria de valor. Floresce desregrada nesta eterna busca de eficácia, que exige não o melhor ou o mais próximo ou o mais quente; exige o mais rápido. O movimento mais veloz, que me transporte num segundo e me entregue os minutos que ganhei para dormir, ou trabalhar, ou reter o olhar nas luzes e cores que remetem o mundo ao silêncio. Para quê o esforço de me conhecer, quando posso reduzir o conhecer, redefinir o conhecer a uma forma medíocre de conhecimento?

Um universo em que posso redefinir as palavras, em que a semântica é volátil com os desejos pueris, é um universo de seres domesticados, engolidos em conflitos internos que nem sabem nomear, quanto mais entender.

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