PAUSA

Não há indiferença perante uma porta fechada; é uma analogia perfeita. Ao erguer-se, autocrata, demarca o fim e o início do cosmos. Um mundo que acaba, um mundo que começa. O caminho, por entre, poderia ser direto, de fácil acesso e retrocesso; mas a porta impõe uma pausa. Nada se afirma, nada se nega, a porta só sustém e promete; e é neste suspenso promissor que se diferencia, pois as janelas nada prometem, as paredes tudo negam – só as portas não se comprometem.

O que sustenta a analogia? É que a vida exige movimento; é, em si, um exercício dinâmico. Um passo em frente nunca é só um passo em frente: é uma conjugação de forças, de atritos e reentrâncias, determinismos fatais que nos encaminham, solenemente. Até a hesitação no passo é-nos prescrita, o passo atrás também o é, e por entre estas violências que nos constringem e nos isolam, vemos a porta fechada à nossa frente e, por um momento, um breve, inóspito momento, reconhecemo-nos.

Eu sou a porta.

O pensamento trespassou-me assim, perante a porta, pronto a sair. Já tinha a mão a meia viagem da fria maçaneta, pelo que foi aí que ficou – a meio da viagem. Foi um pensamento bizarro mas não inocente; foi antes dos que se enraízam nos nervos e negam as sinapses, obrigando a uma qualquer forma de paralisia que sempre surge ou remete o mundo ao silêncio.

Como assim eu sou a porta?

A pergunta foi reflexo inconsequente, algo intimamente humano que se atreve sempre a questionar. A afirmação, contudo, manteve o preenchimento de certeza, de absoluta correção, de dedutiva firmeza. Procurar compreendê-la – a sua essência – seria condenar-me às demandas da imobilidade, o delírio extravagante dos homens que pensam. Não estivesse o reino humano condenado ao temporal dinamismo; mas aqui nada de eterno habita, nesta raça da inquietude, pelo que Deus de nada me serve, neste momento, paralisado perante a porta fechada.

Aonde vais?

É o que uma mãe perguntaria, qualquer mãe a qualquer filho. Esta casa, no entanto, é fortaleza, o cerne da solidão, onde os olhos se voltam para dentro e vislumbram a fragilidade, a tendência natural para a queda, para o caos da desproporção de ser tão pouco e tanto mais. Aqui vem-se para estar sozinho: porque à casa só lhe deram um quarto, uma cama, ao fogão deram dois bicos, à sala nenhum sofá, só a poltrona de veludo. Há um barulho que ouço sempre, um estalar bicudo que quebra a moderação e aterroriza-me porque nunca sei de onde vem nem quando vem. E à noite, quando se apaga o candeeiro, o silêncio é total e tela branca. Nascem homens que nunca viveram mas que surgem perante mim, fantasias obscuras que desvanecem, inevitavelmente, com os raios assassinos da manhã.

Vou passear.

Responderia qualquer filho a qualquer mãe, sem nunca ser verdade. Que mais lhe poderia dizer? Que vai ver o mundo para acreditar que é real? No exterior é sempre tão mais fácil, mãe, porque o mundo toca-me de volta, sinto o embaraço e o medo, os olhos que me encontram e logo fogem, que me validam no desprezo. Eu sou real também se o mundo me olha e me vê, e é reciprocamente que ele me afirma e eu plenamente o aceito.

Vou agora, mãe.

A mão encaminhada retomou a viagem sem hesitações, já pré-configurada para envolver a fria maçaneta. Senti a férrea confusão na minha pele e a porta abriu-se, com um movimento estruturado de todo o corpo. Logo se agitou a atmosfera, conforme um vento murmurante intrometeu-se no interior, e apreciei a frescura na carne entristecida; mas também me magoou ver a invasão do meu refúgio, pelo que saí e fechei a porta atrás de mim.

Dei de caras com a rua cinzenta, apertada pelos edifícios crescentes que vão quebrando as leis da física. Pedonal por antiguidade – já que os carros nasceram depois dos homens, e os homens apertaram de tal forma o espaço, que nunca houve carro que por aqui passasse – a rua cinzenta alberga o tempo como um presente viajante. Para mim, enverga sempre o passado e, em tons grisalhos, depreende os meus medos e aflições, reconhece-os como um amigo íntimo que mantém o silêncio.

Na verdade, sou sempre eu quem o quebra. Vejo-me sempre obrigado a pensar, a pensar em algo, para ter algo por que esperar. E é aqui que me socorro, neste esboço de religião que me exige uma crença, e logo se move, espontaneamente, para a saudade – essas fantasiosas abstrações. São tão-só a suavidade da experiência de um momento, um momento que não é nem foi ou será mas que aprecio humanamente, com a naturalidade com que adormeço, viajando na alternância dos mundos.

Logo desperto. Prefiro, apesar de tudo, manter-me neste nível, nesta experiência superficial, do que aprofundar-me e descobrir que não é só um sentido, um fim que procuro. É um fim maior, um fim que me centre e me salve e me eleve. Um fim que me justifique e faça de mim o que este chão me prometeu, as falácias que me convenceram a nascer e que se instalam em mim, como um vício delirante que me rouba da razão.

Sofro mais pelo horizonte do que pelo chão que piso, não porque não o ame também, mas porque vejo-lhe a corrupção. Os homens só são belos em abstrato e atrai-me intimamente a abstração. Há dias em que acordo e sei, que em esforço, posso ser ninguém, um absoluto intenso, uma razão pura, uma sincera unidade; depois desperto, realmente, e surge toda a criação medonha e sufocante. Por isso resisto à abstração; sei, como na saudade, que o horizonte é a distância que o sustém.

Quem ali vem?

Foi a minha voz a fazer a pergunta, em ecos cranianos. Como um relâmpago, despertou-me; um clarão conciso que me recordou de ser corpo, este corpo em particular. Entretanto, tinha-me tornado nas paredes, nas velhas paredes da rua cinzenta, numa qualquer forma vivida em puro ato, no misto da fria humidade, do odor fúngico e verde e dos salgados minerais. O trovão veio depois, como sempre vem, quando dei conta dos meus olhos a prenderem-se num corpo a aproximar-se, à minha frente.

Foi então que me vi. Foi então que cruzei caminhos comigo, caminhando em sentidos opostos. A rua quis manter o grisalho sossego, indiferente ao meu tumulto interno e até desagradada por me sentir irrequieto, pelo que me expulsou violentamente – o que ainda restava de mim – das suas paredes.

A violência empurrou-me e caí sentado, sem que a dor fosse bastante para a sentir sobre o assombro de me ver duplicado. Do chão, vi-te chegar, calmamente, mãos nos bolsos. Distraído, vestias um sorriso temperado, quase anestésico; os teus passos eram veludo sobre a pedra cinzenta; os teus gestos, descoordenados, ignoravam qualquer forma de temor. Quis perguntar-te por ti, conhecer-te; mas as palavras morreram-me na boca quando percebi que caminhavas em frente. Passaste pelo meu corpo caído, derramado sobre o chão de desprezo, e nem um músculo teu hesitou. Depois, foram os teus passos que ouvi, a definhar, já longe de mim, até ao silêncio.

Corri de volta para casa. Na pele, um tremor ameaçou-me de um novo colapso, mas o corpo agarrou-se, a carne aos ossos, e só com o som do trinco do fechar da porta, deu de si. Novamente, enraizaram-se os nervos e paralisei num silêncio absoluto; mas desta vez não foi um momento. O tempo perdeu-se, hesitou, temeu-me ou teve-me dó; voltou diferente, enegrecido, a transpirar uma singular esperança, fruto do calor noturno.

Naturalmente, voltei à rua cinzenta, embriagado pelo suor da noite, cego no seu negrume. Por um momento, julguei ouvir-te nos ecos dos sons por vir e antecipei-te com um ardor pecaminoso. Imaginei-me a ferir-te só para te salvar da morte, mas temi que mantivesses o sorriso temperado de quem se descobriu tranquilamente, ao longo do crescimento, do fazer-se homem.

Horas depois, dei por mim de costas para a rua, com o pé de volta a casa. Ficou tarde, tão tarde que te perdi na dialética da realidade. A porta, vestindo a noite, sussurrou-me doces palavras de um mundo fechado, um universo eterno e limitado, finito nas fronteiras mas absoluto em si. Acreditei, como um ato de fé; recolhendo-me na pura crença da vontade. No movimento – a porta a fechar – encontrei o sacrilégio da piedade, a dualidade humana.

%d bloggers like this: