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Os artistas que morrem, as obras que ficam.


Há que aceitar o dinamismo; se não for por mais nada, por ele ser indiferente à nossa aceitação. Não há forma de conter a enchente que nos define, esta errática onda que não estanca, que não conhece o silêncio ou o andar cuidado – só a imatura violência, o impacto sofrente. Os homens, quando chegam, fazem sempre mais barulho do que a natureza, e não por ela ser menos dinâmica: mas a natureza embrenha-se no fluxo, nas oscilações, pelo que a sua violência é sempre ordeira, harmoniosa; a nossa é sempre dissonante.

Avance-se, contudo, pois este reconhecimento humano, estas lamúrias niilistas, já foram choradas 1001 vezes – e ainda que se possa dizer o mesmo sempre de uma nova forma, sempre de uma forma mais bela ou humana ou apropriada ao seu próprio tempo, o que me parece evidente é a facilidade de o fazer, mais do que a necessidade ou relevância.

Dizia Vergílio Ferreira:

Cerca-nos o invisível de todo o lado. Mas se em todo o horizonte está presente um outro horizonte que o margina, até a um horizonte final, se na mais breve palavra está o aviso do insondável, se o espaço do invisível se anuncia no do visível, é na obra de arte que mais presente e visível se nos revela o invisível – é na obra de arte que particularmente o invisível se vê.

Vergílio Ferreira – Espaço do Invisível

A arte – e repare-se que me refiro não a um qualquer sentido abstrato, mas ao conjunto de obras e expressões artísticas humanas – persegue-nos desde os nossos primeiros registos. As obras artísticas caminham connosco, num passo que simultaneamente nos imita – ao espelhar as preocupações da época onde nascem – mas também nos transcende, nos ultrapassa – ao embrenhar-se no tempo humano, já fora da experiência cosmológica do tempo. A evidência disso, é que são ainda os seres humanos do século XXI que se deslumbram com as peculiares gazelas nas paredes das cavernas, independentemente da sua função ou propósito original. A dimensão visível parece, portanto, comportar em si algo de invisível; de certa forma, é até a consciência simultânea do visível, do que se vê, e o quanto isso surge como insuficiente, incapaz de traduzir a experiência do espectador, que comprova a invisibilidade. Mas o que há de invisível numa obra de arte? De que se trata, então, o que não se vê?


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Viajemos por um momento no tempo. São inegáveis – e quem haveria de os querer negar? – os avanços científicos dos últimos séculos, particularmente nas últimas décadas. Daí, no entanto, à divinização da ciência, vai um passo a que eu me abstenho, e a que apenas encontro justificação no confortável estado atual de automatismo social. Recordemos, afinal, que a modernidade que Galileu iniciou, ao opor-se ao método escolástico, marcadamente aristotélico, dos professores da Universidade de Pádua, vai desde logo contrariar a custosa demanda pela essência das coisas. É pela redução da complexidade do universo a informação específica, traduzível em termos matemáticos, pela decomposição da visão do mundo que transita dos porquês para os comos, pela limitação do estudo ao concreto, construído empiricamente, baseado na então todo-poderosa observação – é por tudo isto, dizia, que a ciência, nomeadamente as ciências naturais, puderam encontrar um universo próprio para florescer. No entanto, e tal como o quis ignorar Comte com o seu Positivismo, e tal como o reconheceu Dilthey ao criticar as ciências naturais, o homem, defronte a um espelho, pode saber tudo o que a biologia lhe diz, toda a física que o mantém em pé e toda a química que lhe conduz as transmissões nervosas; e, ainda assim, ao ver-se no espelho, pergunta-se “Porque raio sou eu assim?”, sem que qualquer cirurgia estética possa alterá-lo o suficiente para matar também a pergunta.

É certo que o foco nos comos trouxe-nos, enquanto espécie, evoluções inimagináveis para qualquer pobre coitado ateniense da Grécia Antiga, que todos os dias via Sócrates a olhar para si e já sabia que teria de ouvir um daqueles irritantes porquês a evidenciar a sua ignorância, como um moscardo que sempre volta. Contudo, a pergunta no cerne da fragilidade humana, não é um como. O homem quer saber porquê, quer sempre, mais do que qualquer outra coisa, saber porquê; e não é difícil de discernir essa raiz fundamental em todas as decisões, todas as escolhas, todas as filosofias de vida, os livros de autoajuda, as formas de meditação, os suicídios, as preces, as cartas de tarot, as ficções científicas, os vícios. Talvez não seja uma descrição injusta, vermo-nos – cada um de nós – como a singular forma dinâmica que se estrutura perante essa universal questão, mesmo que se esteja em plena inconsciência dela, mesmo que para alguns ela nunca se tenha exposto assim tão claramente.

Não se leia nestas palavras, no entanto, uma veneração da filosofia. Tal como a ciência, o entretenimento, a feitiçaria e a reciclagem, também a filosofia é perfeitamente inútil – pelo menos, nesta distância, nesta abstração de onde escrevo. Se nos exponho como perspetivas perante a mesma questão, não é em área, mas em perímetro; ou seja, num imaginário espacial, é equidistante do centro a posição de cada um, como a superfície de uma esfera.


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Talvez seja esta a invisibilidade: o porquê. E talvez assim o seja por duas inquietantes razões: a primeira, contemporânea do seu tempo – porque ainda não descobrimos a resposta; a segunda, transcendendo-o e remetendo para uma outra dimensão que já não reconhece as dores individuais, as causas concretas que levaram quer o artista a fazer a obra, quer o espectador a ir vê-la – porque ela pode perfeitamente não existir, porque pode não haver qualquer resposta. E o humano, nesta sua ansiosa condição, vê ambas as razões na obra, e é ao vê-las que se diz sem palavras. Afinal, o que é a veneração de um artista, mais do que a ludibriada crença de uma possibilidade de resposta? O que é o amor por um livro, a investigação profunda de cada palavra de um autor, do que a descoberta das mesmas perguntas, das mesmas aflições? Onde está a beleza da chuva, das cidades, das imagens de guerras, dos depósitos de lixo, das superfícies áridas de outros planetas; senão na empatia que lhes desvendamos por terem algo de comum com o nosso invisível? E se se pode, certamente, falar de um valor estético que se demarca desta tentativa de definição de arte – como o virtuosismo, a pura exploração, a quebra de limites – profundo, diria, é esta a primeira condição que torna a arte nossa congénere, nascendo connosco e, no fim do nosso tempo, morrendo connosco também.

Afinal, o que será a Mona Lisa quando morrer o último humano? Ou talvez, num cenário que me desalenta tão mais do que a extinção, o que será a Mona Lisa quando, cego pela constante estimulação, reduzido à erótica frívola da visão, o homem deixar de se questionar?

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