Mil Homens

literatura. música. arte digital.



Medo e Esperança.


Irradio da fragilidade, não por amá-la mas por ser ela a minha condição fundamental. No profundo de tudo, em todas estas formas artísticas encontro-me sempre a dialogar comigo mesmo, a expressar-me por entre a incompreensão, num esforço ilusório que tenta dar sentido ao caos, ainda que consciente de que todo o sentido é sintético, artificial, teatro que me diverte por ser inconsequente.

Escrevo, enfim, porque sei que vou morrer, e a morte é a mais divertida das questões pois é tão universal quanto incognoscível. Todas as tentativas são meras abstrações, como os brinquedos com que as crianças fabricam as mais arrojadas narrativas. Também nós fabricamos fantásticas aberrações. É essa restrita diversão de criar ordem, ainda que artificialmente, que está na escrita, na introspeção, no prazer do desprazer, na violência, na saudade.

Não é só de morte que se escreve, no entanto, escreve-se também sobre outras coisas – todas as outras coisas. Contudo, é inegável que sem a morte, sem esta real fonte de fragilidade, o homem não seria humano, pelo menos na definição que se lhe atribui. É que é a morte, em muitos aspetos, que confere significado; que torna algo valioso. É a morte que nos faz rir, quando vemos alguém escorregar, tal como é a morte que nos dilacera quando nos vemos incapazes de superar um obstáculo. É ainda a morte que nos sustém no sofá, como no olho de um furacão, insistentemente letárgicos se sozinhos ou ativamente emotivos quando com outros, porque nesse caso ansiamos por uma ligação emocional, uma validação existencial advinda de outrem, ao partilharem connosco da repulsa pelas notícias, da empatia pelas personagens, da catarse pelo espetáculo. É, assim, como uma raiz artística, a morte como musa original.

Acredito, contudo, que o significado que a morte dá, não é por definir a finitude; é sim por comprovar que nada tem significado – não por si mesmo. Afinal, eu escrevo também porque sei que isso nada significa, algo que só aprendo com a morte porque seja qual for a forma que a vida tome, no fim, o revolver do tempo vulgariza até a mais peculiar personalidade. É a indiferença, a total expansão indiscriminada da experiência de morrer, que quebra qualquer religião, qualquer imposição social, qualquer costume ou tradição. É a morte que me ensina que, o que há de absoluto, de inteiro em mim, é a minha contingência – sou um mero acaso de possibilidades. Do infinito de todos os homens possíveis, emergi como as ondas que violentam o mar mas sempre a ele retornam. Não me destaquei, não me segreguei, não dei início a uma nova forma de vida, a uma nova existência, não. Vim de um infinito e a ele retornarei, estando entretanto enclausurado nas mesmas limitações que todos os outros homens experimentam – as que estruturam o despertar para a consciência.

Desenganem-se: não há nisto qualquer pessimismo. Não estou a afirmar a condenação, o castigo divino de Adão e Eva. Se as limitações parecem ter uma conotação negativa por si mesmas, fomos nós, em utopias de amor e liberdade, que as criámos. As limitações, sejam elas quais forem, são tão-só reais; não são más ou boas. É depois a perspetiva de cada um que escolhe como se enfrentam estas coisas, estas insignificâncias. Afinal, uma inexistência de sentido metafísico, de uma obrigação transcendente, não anula os objetivos terrenos, as ambições humanas; se alguma coisa, responsabiliza-as, imputa responsabilidade. Torna-nos, cada um de nós, responsáveis.

“Quem ignora o clamor escandalizado deste ou daquele crítico que nos declara que isto já não é poesia, que isto já não é teatro, que isto já não é romance? E todavia só o não é, como não é a nossa face envelhecida que nós vemos ao espelho, quando a vemos com os olhos da nossa juventude; (…) Mas o que não é legítimo é não reconhecermos legitimidade à voz dos outros. Porque todo o homem que nasce é o primeiro homem que nasce e a ele cabe portanto reinventar o mundo e a vida como o Deus bíblico do Génese. Ao sétimo dia descansará, porque estará naturalmente fatigado. Será a altura de um novo homem recomeçar. Será a altura de o homem velho nos proclamar que isto não é poesia, nem teatro, nem romance.”

Vergílio Ferreira

Em outras palavras, a questão é: sem uma imposição divina, sem uma clara linha a definir as certezas, os bens dos males, sem ídolos ou deidades – sem, no fundo, a ilusão de uma ordem anterior a nós, omnipotente neste caótico universo, a definir a natureza do que somos, é o homem bom? É o homem mau? Têm, sequer, sustento estas palavras?

Diria que não; mas, mais importante, diria que os tempos conturbados que vivemos se devem à responsabilização dos atos – cada um de nós, em cada ação. É que se nada tem significado por si; se todos morremos e somos conscientes da morte e, por isso, frágeis; e se ruge entre nós o combate à religião (um combate tantas vezes ignorante mas, ainda assim, característico destes tempos) e, consequentemente, um combate a moralismos impostos e pré-definidos – se estas condições são as condições do nosso tempo, então as consequências são profundamente voláteis. O homem passa a ter de aceitar, por si, as suas fraquezas; a reconhecer os seus erros; a ter de combater os seus carnais desejos que deixam de ser castigo – ou então pode simplesmente não o fazer. E perante as evidências, ambas as escolhas não são só válidas como equivalentes. Isto porque, se o homem não é bom mas também não é mau; se o homem escapa a estas reduções, então o homem pode respeitar ou não, pode amar ou não, pode magoar ou não. Cada homem é capaz de todos os crimes, se motivado e condicionado para tal. Cada homem tem em si a mesma potencialidade que qualquer outro, para qualquer ação, para qualquer violência ou piedade.

Somos sempre frágeis e nunca perfeitos; mas não é só aceitar que somos sempre frágeis e nunca perfeitos. É ainda aceitar, aprender a viver na consciência que os outros o são também. E se o Zeca vivia procurando “em cada esquina, um amigo”, quantos não cantariam em vez o temor do virar da esquina? E teriam menos validade? Diria que não; diria que, no fundo, no mais profundo de nós, é a perspetiva das nossas vivências, das nossas fundamentais experiências que define o que procuramos ao cruzar a esquina. Pois se eu vivi a violência, não a esquecerei perante a incerteza das ruas; tal como também não esqueço o bem que me fizeram, os momentos de paz, a solidariedade. Requer, talvez, o maior dos esforços e uma forma consciente de ilusão para crer em algo mais do que aquilo que se mostra nas nossas experiências, já que a facilidade está em limitarmo-nos à nossa perspetiva. É por isso que um mundo em paz vislumbra-se utopicamente; quebrar os ciclos de violência envolve, invariavelmente, reconhecermo-nos nos outros, ver nos outros as nossas próprias fraquezas, aceitar que não há monstro que não seja humano.

Enfim; talvez um reflexo de quem somos, de maior precisão do que aquilo que a introspeção nos mostra, esteja exatamente no que esperamos encontrar nas esquinas, naquilo que tememos, naquilo que desejamos. É a nossa perspetiva, a de cada um, singular, expressa em medo e esperança.



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