Mil Homens

literatura. música. arte digital.

Viagens. (VI)


Sei sempre quando preciso de escrever porque antecipo o ardor da escrita das palavras – como se as cravasse na pele, em vez de na página – com um esforço necessário para dar ordem e estrutura ao pensamento; torná-lo, digamos assim, coerente. Afinal, a coerência é sempre um esforço e em parte sem sentido; porque poderia não o fazer, poderia aceitar o caos e, por entre a incoerência, abdicar da razão, do verbo, e depor-me seduzido pela minha própria incompetência. Ela é, de resto, evidente; pois nunca sou capaz de me replicar, de traduzir tudo o que quero dizer ou que gostaria, ao menos, de justificar. Nunca sou capaz, olhando a questão profundamente, de dizer ou escrever o que realmente quero dizer ou escrever. E se é certo que se poderia questionar onde reside tal incompetência – se em mim, se nas próprias palavras – nunca tal dúvida, por si mesma, se eleva para lá da autocomiseração. É que eu sou português, sou pequeno, e tenho pena de mim; e esta trindade é de um conforto soberbo, possibilitando-me a viver sem empenho, sem comprometimento, sem esforços de compreensão e de reconhecimento da humanidade dos outros. É certo que nem todos serão portugueses, pequenos e sofredores pelos seus próprios fados, mas cada homem tem a sua versão, a sua trindade, a sua chance de soberba e egoísmo – e requer sempre esforço, desconforto, um desalento consciente e reunido, para ir além deste microcosmos, desta perspetiva autista.

Entretanto, lá fora, e indiferente a todas estas convulsões, estende-se o mundo para lá de mim, que não é meu, e sobre o qual eu entretenho as mais sinistras fantasias. As estações rodoviárias vêm e vão, e as suas importâncias são relativas a quem a elas chega: uns sabem-se longe dos destinos e nem as olham; outros, de malas nos braços, abraçam o chão febril deste seco verão, satisfeitos com o cumprir do esquema: entraram no comboio na esperança de ali chegar, e chegaram. É a beleza da simplicidade. São, no fundo, estes pequenos momentos, estes breves exemplos que evidenciam o desejo íntimo dos homens: a capacidade de prever resultados, de controlar o incognoscível o suficiente para antever as pequenas coisas. Lá fora, o mundo não quer propriamente saber destas coisas, não precisa de fingir o controlo porque até o calor arrasador, até os incêndios que desbastam décadas de sábio crescimento, são apenas dados, momentos que não requerem significado ou justificação. As plantas crescerão como conseguirem, os animais morrerão ou não – quem sabe? – e segue, persiste sempre essa dimensão intemporal que nos é tão bizarra. Dentro deste não menos bizarro veículo de deslocação (perceba-se: no plano geral de todas as coisas) há um esforço persistente por despachar as horas que teimam em navegar à deriva, num reflexo crónico da nossa impaciente imposição sobre a natureza, da nossa sempre singular perspetiva que se pensa autocrata e dominante. O tempo, também ele, segue indiferente; nem sabe o que nós pensamos dele, nem quer saber – na verdade, não sabe nada de todo e, ainda assim, eleva-se sabiamente à nossa ignorante insistência.

São, no fim, as lágrimas violentas de um bebé que quebram a monotonia da cena. Reconheço algo de irremediavelmente humano nelas; como se nascessem, se fossem fruto de uma qualquer forma pura de humanidade, um ser unicamente humano, sem submissões. Assim são – desde logo e antes de tudo – por serem frívolas, uma vez que nascem do desejo de abrir a janela do comboio; uma janela que, por erro de construção, pelo menos para o bebé, não tem forma de abrir. Contudo, é também a carga monumental que trazem, a total indiferença às imposições que nos permitem gozar de uma fictícia ordem comum – a das ciências, das sociedades, enfim, a dos homens – é esta total rebeldia inconsequente, dizia, esta lucidez característica que as torna tão fraturantes. Acompanha-as o som mais sábio, mais pleno: um grito que expressa ao limite a insuficiência das palavras, dos gestos, das fingidas interações que os homens mantêm por mero hábito e conveniência. É o som que nos recorda do mundo natural, da terra efervescente, da cria desnuda que se recusa a morrer, da árvore milenar que se nutre no silêncio. O bebé, no entanto – e ao contrário da terra, da cria, da árvore – é silenciado pela mãe, em primeira instância, que o abraça e lhe acomoda o desespero descabido; mas é o ambiente hostil – o que o seu choro gerou – que mais o oprime. Não faltará muito para que também ele comece a falar, a aprender maneiras, a etiqueta social dos comboios. Em menos de nada, esquecerá estes gritos, estes choros viscerais que rompem os padrões em que invariavelmente caímos; e então será ele a exigir dos outros o que os outros exigem de si e dos comboios, num ciclo de coação que se preserva e sustenta neste terror do caos, neste anseio pela ordem.

Com o fim do maltratado choro, retoma o silêncio; a monotonia segue-lhe o rasto, só atrasada pelo movimento da paisagem que sempre dá conta do dinamismo da vida – ou, pelo menos, do que a vida deveria ter. O homem ao meu lado, com as suas evidentes entradas capilares, espreguiça-se como se finalmente pudesse relaxar, após tão tenso momento, e aproveita para me observar pelo canto do olho. É discreto, e nada me pergunta; mas imagino que já saiba tudo o que precisa para emitir um ou dois julgamentos sobre o que me faz, os meus valores, as minhas crenças fundamentais. Quero julgá-lo por isso, pela infantilidade de tão trivial proposta, mas intercalo-me na ironia de também eu estar a fazer o mesmo. Logo agora, que me sentia capaz de o odiar radicalmente.


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