Mil Homens

literatura. música. arte digital.

Viagens. (VII)


Será o meu corpo, talvez, a mais bela estrutura concebível, ou a fonte de todos os milagres e assombros onde os pecados vêm morrer, oferecendo, nas suas mortes, a salvação das almas imorais mas penitentes. É, pelo menos, o que pensaria quem atentasse nestas moscas que, incessantes, entregues à devoção e ao fascínio, desesperam pelo toque, pelo contacto direto com a minha epiderme para que possam em mim descansar, silenciar as trêmulas asas e viver, pausadamente. As moscas, na verdade, não se distinguem assim tanto de nós, e também gostam de esquecer o frenesim de quem tem sempre de ir, sem saber para onde vai. O que elas não sabem, no entanto, é que me irritam; não sabem que os meus gestos frustrados não são bênçãos para as proteger dos males, mas sim tentativas de homicídio a que elas sempre escapam com os seus voos ziguezagueantes, emitindo aquele penetrante zumbido que já antecipo antes de verdadeiramente ouvir. Porém, a real fonte da irritação não são estes momentos ínfimos que se revelam já meio terminados, vislumbres passageiros de sensações que se anunciam e despedem em simultâneo, numa imagem de efemeridade que lhes retira importância. Não. É o livre-arbítrio com que cada uma inocentemente me goza que me violenta, consome-me a já cansada empatia, a paciência, e remete-me para um cenário de dó para com Deus; uma blasfémia certamente, mas uma inevitável, dada a minha natural condição para a clemência abstrata, aquele aspeto da pena que nunca origina qualquer ação pois é tão-só um teatro que componho para mim mesmo, encenador e espectador em coexistência.

Quando chega, por fim, o autocarro, é o seu movimento agressivo perante a estática torreira do fim de Agosto que atemoriza as ferventes moscas, debandando em massa, provavelmente associando a chegada daquele enorme paralelepípedo a um gesto meu, um desejo, uma vontade absoluta. Elas não sabem mas, se eu possuísse tal poder, já o autocarro teria chegado há muito tempo, no exato momento em que os meus pés pisaram o cimento consumido e derreado do terminal rodoviário. Pior: fossem os meus poderes dessa ordem divina, e iria certamente mais longe, absolutamente consumido pelo poder absoluto, e expedia-as para uma ilha deserta, no ponto mais distante e isolado dos cinco continentes, para que vivessem sem que eu as conhecesse ou elas a mim. Poupavam-me a irritação, e eu poupava-as dos desaires sobrenaturais, e ainda que nem eu nem elas aprendêssemos o que quer que fosse, seríamos felizes com a realização do encantamento, pela brevidade possível. A que antecede o recair do abafado manto do fastio, do enfado, da monotonia melancólica que serve de indulto a quem vê passar o tempo, irrequieto.

De qualquer forma, o autocarro chega, por fim. As portas quebram-se a meio para dar passagem aos que anseiam por pisar o chão do seu destino, e um oceano de corpos sucede-se na experiência da imitação. Cada um toma o lugar deixado à sua frente numa dança quase sincronizada, só aquém devido à tendência orgânica para praticar um não-sei-quê de caos. Assim, logo surge alguém que se aproveita de uma distração temporária para tirar primeiro as malas, empurrando as outras todas no processo, e tornando-se, num gesto, no alvo de censura dos olhos fulminantes que o desprezam. Desagradados pela perda da ordem, mas não o suficiente para criar algazarra, estes outros homens temem o caos absoluto da violência, que é o mesmo que dizer que se acovardam perante a injustiça. Talvez, no íntimo, o que realmente os irrita é a sua própria falta de capacidade para quebrar estas leis quotidianas, submetendo-se, em vez, às longas e lentas filas quando podiam simplesmente empurrar os velhos mirrados, as crianças mimadas, e tomar a dianteira como lhes fora prometido aquando do nascimento. Afinal, foi desde logo na passagem do ventre materno para a atmosfera terrestre, que estes homens ouviram as promessas de conquista e domínio, as funções de criação e descoberta, em todos eles um novo Messias porvir caído na degradação de um resumo humilde, de serem apenas mais um, cada um, um pobre coitado.

Entretanto, já todos recuperaram as suas malas e debandam em massa, também eles, tal como as moscas. Novos rostos e novos corpos acumulam-se mais uma vez, mas desta vez para entrar no autocarro. Esta nova fila – ou bicha, nos termos destas terras, de onde também brotam finos em vez de imperiais, sem que nada mude nelas, só a história, a tradição, o que é ouvido e repetido geracionalmente – a fila, dizia, para quem quer entrar num autocarro de longo percurso, é sempre, em geral, um exercício fundamentalmente humano: estes corpos animados debatem-se para serem os primeiros a entrar, apesar de entrarem, desde logo, com os lugares marcados. É como se se apressassem numa corrida definida a priori, como se combatessem com excelso vigor numa reconstituição histórica. É, enfim, mais um caso da comedida razão a suspirar ao vento; um exemplo da inevitável mesquinhez do quotidiano, que não é malvado, nada tem de mal por si mesmo, move-se somente, como o recheio do autocarro segue as ordens do motor. No homem, neste homem, nesta figura humana representativa do século, do momento evolutivo específico ao século XXI, é a emoção que se manifesta soberana. E a emoção – para mal dos meus pecados, que é como quem quer dizer, para as minhas conceções de justiça e concórdia – é tão mesquinha quanto pródiga, tão profunda quanto supérflua, por vezes simultaneamente as duas ou até negando-se uma à outra. É que as pessoas apressam-se para entrar no autocarro com o mesmo fulgor com que ajudam um desconhecido, com que vulgarizam um sem-abrigo; a pujança que as faz matar a ninhada que nasce como despesas e incómodos, é a mesma, nas mesmas pessoas, que as leva a encher de leite o prato dos gatos de rua. É o que nos faz; e, invariavelmente, sou eu também fruto da mesma árvore. Resta saber o que me faz estranhá-los tanto.

De súbito desperto; não porque fosse tudo um sonho, mas por ter adormecido pouco depois de ter chegado ao lugar que me foi designado. Foi o choro dos travões que me alertou, uma pequena violência sonora a que o meu organismo respondeu ao trazer-me de volta à consciência. Seria indubitavelmente de maior interesse se tivesse sonhado com alguma coisa, pois poderia agora escrevê-la, com as devidas modificações; mas não. Sou ainda este corpo, neste espaço e tempo, e pelos breves momentos em que não fui – apostemos em quinze minutos – fui tão-só o absoluto negrume onde juraria não ter passado tempo nenhum, um piscar de olhos somente. É o humano em mim que acha sempre que o mundo estagna quando não o estou a ver; talvez seja isso, na verdade, que me solavanca no despertar, que me confunde. É que a senhora ao meu lado, nos seus grisalhos modos, é ainda a mesma; mas teve mais quinze minutos do que eu, que os perdi ao afogar-me na negra inocência do vazio. Claro que, no fundo, nenhuma destas coisas tem grande importância, mas isso também é parte da beleza de todos nós: quer nos matemos numa última grande guerra, quer recriemos o paraíso na Terra, o que perdemos e o que ganhamos, as apostas desmedidas e os comedidos dias – em tudo, a consciência de um fim, e de um recomeço posterior, olvidado do passado, alheio ao que cada um de nós foi e ao que tentou ser. Na essência, uma raiz comum.

Tu morrerás também. Um ai supremo,
Na noite universal que envolve o mundo,
Há de ecoar, e teu perfume extremo

No vácuo eterno se esvairá disperso,
Como o alento final dum moribundo,
Como o último suspiro do Universo.”

Antero de Quental

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