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Deitado de olhos abertos, na solidão do silêncio, encaro a escuridão de frente, como um eterno arqui-inimigo, o canto de onde surgem os demónios. O conceito de inesperado atormenta-me desde cedo, pelo que, a escuridão – com as suas características místicas, com a sua capacidade de esconder qualquer forma, qualquer cor – sempre me aterrorizou. A imaginação entra em descontrolo, num desenhar de tormentos caóticos, constantes, independentes de feedback, rabiscando a tela negra infinita, baseando-se na realidade, mas mutilando-a, esventrando-a, concebendo-a conforme a sua vontade, qual rato de laboratório.

No escuro, não há verdade. Não há errado. Não há ilusão, salvação ou redenção. No escuro, não há realidade, ou é apenas a nossa criação, sem absolutos, sem limitações. Eu não existo para lá da minha consciência; estes supostos dedos (que não vejo, só imagino) que tocam na minha suposta pele – o que me confirma que são como os imagino? Sinto-os, mas até o que sinto é dúbio, facilmente manipulado, falível. Se pressionar o interruptor da luz, verei-me humano, ou sob uma qualquer forma demoníaca?

Não há absolutos, não há limitações, neste infinito mundo sem luz. Só a minha consciência – esse conceito tão abstracto, tão desviado – é certa.
Alucinante solidão.



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