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Crónicas humanas (II):
O que aprendi a ver mortos.


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É certamente algo estranho de se dizer: mas uma das visões mais belas que presenciei, foi de um peito aberto.

É importante referir, imagino, que eu estive em Veterinária; e que o peito a que me refiro, não era humano, mas sim de ovino.
Ainda assim – e por mais que para mim já não o seja, considerando as dezenas de bichos abertos que vi – reconheço que possa continuar bizarro, a olhos virgens.

A descrição que se segue é macabra, cautela se houver estômagos frágeis desse lado; ainda que, curiosamente, e por experiência própria, possa realçar que nunca encontrei um estômago que fosse difícil de abrir.


Necropsias são procedimentos médicos em que se examinam cadáveres para determinar a causa de morte.

Se se questionam da necessidade/importância de estas serem feitas por alunos, respondo que me ensinaram mais estes mortos – sem um único urro – do que os outros todos vivos. Contudo, e porque a natureza é semelhante em qualquer sítio, recordo as palavras de uma professora: “vocês deviam ver os bichos morrer, para levarem isto a sério.” e penso que boa parte fica logo dito.

Photo by Arindam Raha on Pexels.com

As necropsias seguem uma sequência, de modo a que nenhum órgão seja esquecido, ou que um doente contamine um saudável e depois – já sem remédio – se confundam os dois.

Engloba 3 fases: a identificação do animal, o exame externo e o exame interno.


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Terminadas as duas primeiras fases – menos importantes para o caso – o animal é colocado em decúbito dorsal – ou “de barriga para cima” – e rebate-se a pele. Depois são abertas as cavidades torácica e abdominal.
Deixo aqui uma pequena descrição do momento:

“Para rebater a pele, deve-se iniciar uma pequena incisão ao nível da sínfise mandibular, na qual é introduzida a faca, e secciona-se a pele de dentro para fora.
Prolonga-se o corte ao longo da linha média intermandibular, face ventral do pescoço, região esternal, linha branca do abdómen e região perineal, ladeando o orifício anal.”

Ainda hoje – passados cerca de 5 anos da primeira vez que o ouvi – mantenho a crença que poucos sons se assemelham ao que uma costela faz ao quebrar.


Removidas as vísceras, os órgãos são analisados.
E foi, aliás, num corpo eviscerado, que presenciei a tal visão.

Em retrospectiva, não entendo a razão para o diafragma estar praticamente intacto – já que é comum libertá-lo a certo ponto, na evisceração.
Talvez até tenha sido esse incomum de pretexto a chamar-me primeiro à atenção.

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O diafragma é um músculo, que demarca a fronteira entre as cavidades supra e infra. É uma estrutura fina e com uma posição atípica, no sentido em que se estende perpendicular aos pulmões, transversal ao corpo, o que não é visível nos restantes órgãos.

Imagine-se, na imagem da minha visão, a ausência de pulmões – acima – e de intestinos e baço e estômago – abaixo; mas, ainda assim, a posição do diafragma em tudo semelhante com a que manteve, em vida, estendido e cativo nos mesmos domínios.
As costelas, ainda ligadas entre si pelos músculos intercostais, e mantendo também a sua posição natural – apenas ausente o plastrão, o esterno.

Da janela elevada do edifício, entrou um raio luminoso de Março, reluzindo no tórax do animal morto. Os músculos – quer os intercostais, quer o diafragma – translúcidos por natureza, retiveram parte da luz, permitindo passagem à restante e, assim, iluminou-se um oceano vermelho, consumido por rasgos capilares de cor intensa, vívida como nenhuma outra, talvez pelo contraste automático com o envolvente.

Há sempre algo, na incidência da luz nos mais variados objectos, que se expressa numa violência emocional restrita ao segundo em que surge, e se extingue em absoluto no segundo seguinte.


O que importa isto tudo?
Provavelmente muito pouco.

Decompor um corpo, ver as entranhas que mal sentimos, em vida, é, decerto, uma lição singular de humildade – perdem-se as fantasias de dissemelhanças, de virtuosidades.
Um homem é um homem, um cão é um cão, uma ovelha é uma ovelha; até que deixam de ser – depois, passamos todos a ser mortos. A carne dilacera-se igualmente, os órgãos putrefazem-se e as costelas incomodam sempre, a partir.

Pode parecer pessimismo, mas não: é até dos raros válidos momentos de optimismo, limitado somente pela incomum capacidade de reconhecer a comum incapacidade para o mesmo.


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