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Um quarto; é um recinto fechado, um circo sem público.


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Um quarto; é um recinto fechado, um circo sem público.

Eu sou, no centro, o objeto que se move por vontade própria, uma sinfónica melodia de contrações e relaxamentos, actina, miosina, troponina e tropomiosina.

Em redor, uma imensidão de outros objetos; a todo o momento, cada momento em que existo, em meu redor, um universo de objetos que se cruzam comigo, que me ultrapassam ou avançam em retrocesso.

Eu – que me desculpem – tenho só cinco sentidos, resumo-me a eles apenas, a nada mais; cada um atende – em solidão ou agrupados – a um número restrito de objetos. Tantos mais há do que aqueles a que eu atendo mas os que eu atendo, esses são meus.

Eu existo, assim, com os objetos que atento; sujeito → objeto; eu e eles numa definida, controlada simbiose, em que nos afirmamos mutuamente, um ao outro, uns aos outros. É uma sociedade que vive aqui, neste apertado largo quarto, e quando olho para o livro em cima da secretária, ele diz-me finalmente sou eu, é a minha vez de existir.

Todos os restantes, todos os outros tantos, são infinitos e sem essência para mim; existem num simultâneo ao infinito; no mesmo espaço, ao mesmo tempo, um infinito de tudo o que não sou eu e os meus objetos.

Afinal, que é a existência mais do que aquilo com que interajo ou que interage comigo?


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Neste quarto, há um infinito; é tudo o que eu não sou.

O presente é hoje, aqui; mas também ali, atrás de mim, se eu o quiser; há três águias que fazem ninho no meu armário; três elefantes que se banham onde guardo os lençóis. Hoje é terça-feira, ainda vai ser quarta e quinta antes de o sol se por.

Vive comigo tudo o que não vejo, tudo o que não sinto; há lágrimas que falam em oceanos, cordas que se imaginam instrumentos de sopro. Estão sempre atrás de mim, sempre a murmurar as doces melodias que me apaixonam.

Mas também veneno suspira por aqui; navega no ar como um barco à deriva, eu inspiro-o sem o sentir, só no fundo, só quando já me chacina as células das vias respiratórias – só aí, no fundo, sinto a lixívia. É imaginação.

Não somos todos?

Não sei quem perguntou; o livro, talvez.


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