xxxviii

Epicuro, o Epicurismo e porque não devemos temer a morte.

Em sequência de xxxvi


Para falarmos sobre o Epicurismo é importante, primeiro, falarmos dos ensinamentos e da pessoa que o originou – Epicuro.

Photo by Public Domain Pictures on Pexels.com

EPICURO

  • VIDA

Epicuro nasceu em 341 AEC, em Samos, mas mudou-se para Atenas aos 18 anos, no ano em que morreu Alexandre Magno.

Foi em Atenas que estudou filosofia, com Nausífanes – um ex-aluno de Demócrito.

Demócrito – desenvolveu a teoria de que a realidade é formada por átomos e o vazio (ausência de átomos) – importante para o desenvolvimento do Epicurismo.

Saiu de Atenas para Mitilene e, mais tarde, para Lâmpsaco – tendo, em ambos os sítios, dado aulas e angariado alunos e admiradores das suas ideias – mas voltou, depois, para Atenas, onde haveria de ficar até à sua morte, com 71 anos.

Ao regressar, Epicuro comprou um jardim, onde estabeleceu a sua escola que ficou, por isso, conhecida como o Jardim.

Busto de Epicuro

Muito do que se sabe sobre Epicuro, foi-nos deixado por Diógenes Laércio, um historiador e biógrafo do século III (EC) – na sua obra (com 10 livros) Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres.

No livro dedicado a Epicuro, é-nos relatado que, em vida, Epicuro foi vítima de hostilidades, ao acusarem-nos de praticar magia, plagiar outros filósofos e dedicar-se aos prazeres sensuais.
Diógenes explica, no entanto, que Epicuro era um homem gentil e generoso, humilde, comedido e moderado.
Julga-se que estas hostilidades terão sido originadas por compreensões erradas das perspectivas de Epicuro – perspectivas essas que, mesmo hoje, são mal interpretadas, como veremos de seguida.

  • FILOSOFIA

De um modo simples, podemos resumir a ética epicurista numa única frase:

  • Procurar o prazer e evitar a dor.

É, no entanto, devido à simplicidade desta frase, que se originaram muitos equívocos.


A base da filosofia de Epicuro é um desenvolvimento da teoria atomista de Demócrito, reiterando que os átomos são partículas materiais, sólidas e individuais que não podem ser divididas.
Não as vemos porque são demasiado pequenas, mas constituem tudo o que existe.

Para lá dos átomos, existe o vácuo, ou seja, o lugar onde os átomos se deslocam.

As características e propriedades das coisas – cores, sabores, textura – resultam da interacção entre os átomos das coisas e os átomos dos nossos órgãos dos sentidos – através de ganchos e indentações que os átomos possuem.

Anúncios

Esta última ideia é particularmente importante para o Epicurismo.
Epicuro defende que, não só as nossas percepções, mas a própria anima – significando tanto alma como mente – é constituída por átomos.
Ou seja, o mundo é totalmente físico. Nada existe que não seja físico.

Daqui, Epicuro concluiu duas noções muito importantes:

  • Quando o corpo morre, os átomos que formam a mente dispersam-se, terminando as funções de sensação ou pensamento – ou seja, não há vida depois da morte;
  • Os Deuses, ou não existem, ou existem numa forma muito diferente da que popularmente são imaginados.

EPICURISMO

A morte não nos diz respeito, pois o que é bom ou mau implica senciência, e a morte é a privação de toda a senciência.”

epicuro

O Epicurismo defende que, ao compreendermos a natureza do mundo – capacitando-nos para distinguir entre o que é real e o que não – percebemos que não há nada a recear da morte, o que nos liberta da religião e da superstição.

É de realçar, no entanto, que o Epicurismo recusava o ateísmo. Defendia que os deuses existiam, apenas não tinham qualquer interesse nos humanos – possivelmente até não sabendo da nossa existência.

Esta visão, no entanto, levanta incongruências com a teoria atomista, dado que implicaria que um corpo físico (dos Deuses) teria de ser imortal.

Acredita-se, por isso, que estes “deuses” poderão ter sido uma forma de Epicuro esconder o seu ateísmo, ou que concebeu estas versões divinas apenas como idealizações da mente humana, só aí existindo.

“Procurar o prazer e evitar a dor.”

epicuro

O Epicurismo defende que alcança-se a felicidade através da Ataraxia (ver xxxvi) e da Aponia.

Aponia:
– Ausência de dor;
– Na visão Epicurista, ausência de dor (física e mental) é o ápice do prazer, ou seja, o prazer aumenta até ao ponto em que há uma ausência completa de dor (Aponia).

Apesar do que a afirmação possa transparecer, “procurar o prazer” – na visão epicurista – não traduz a versão moderna desenfreada.

Pelo contrário, o Epicurismo reflecte um vida moderada e agradável, com raciocínio sóbrio que possibilita a compreensão dos fundamentos das nossas decisões, de modo a eliminarmos as que nos provocam inquietação.

É o próprio Epicuro quem nos diz que, por vezes, devemos dispensar prazeres que nos provocam inconveniências, ou escolher certas dores em vez de prazeres se essas dores nos trouxeram um prazer maior, mais tarde.

A moderação estende-se às coisas externas: pelo que devemos ser independentes destas, para evitar incómodos quando não as temos.
O natural encontra-se facilmente, as coisas sem valor é que são difíceis de obter.

A alimentação deve ser simples e barata, pois dá tanto prazer como uma dieta cara – e o maior prazer vem de lábios esfomeados.

Epicuro e os Epicuristas viam na amizade – philia – um dos maiores prazeres da vida.
Epicuro afirmou que, ainda que as relações se iniciem por uma questão de utilidade, transformam-se, com o tempo, numa relação de altruísmo e benefício mútuo, promovendo vidas prudentes, honradas e justas – sem necessidade de religião ou tiranias, de medo ou castigo.

Termino com as palavras de Epicuro sobre o objectivo da filosofia:

“Se a filosofia não curar a alma, é tão má como um remédio que não cura o corpo.”

Epicuro
Anúncios
Anúncios


One thought on “xxxviii

  1. Pingback: xli – Mil Homens

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: